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Como agiu o alto-comando alemão e suas divergências
internas durante a invasão da Rússia,
a operação Barbarossa, em 1941.
É natural que uma certa nebulosidade prejudique
o entendimento das situações vividas em
tempo de guerra. Em 1941, contudo, havia uma camada
extra nessa neblina que afetou em muito o curso dos
acontecimentos. Isto porque no mais elevado quartel-general
do exército invasor, uma surpreendente nebulosidade
não permitia que se vissem direito os objetivos
a serem alcançados. Hitler e o comando do Exército
tinham idéias diferentes, desde o início
do planejamento, e nunca chegaram a harmonizá-las.
Hitler queria conquistar Leningrado como objetivo básico,
limpando assim o flanco do Báltico e ligando-se
com a Finlândia, e também tendia a reduzir
a importância de Moscou. Por outro lado, com seu
agudo senso dos fatores econômicos, ele queria
também conquistar a região agrícola
da Ucrânia e a área industrial do baixo
Dnieper. Os dois objetivos eram extremamente afastados,
o que resultava em duas faixas de atuação
inteiramente separadas. Tudo muito diferente da flexibilidade
que resultaria da atuação em uma faixa
única e central que ameaçasse objetivos
alternativos.
Brauchitsch e Halder queriam concentrar
esforços no eixo de progressão sobre Moscou
- não por causa da conquista da capital, mas
porque sentiam que esse eixo oferecia uma boa chance
para destruir o grosso das forças russas que
eles "esperavam encontrar no caminho de Moscou".
No ponto de vista de Hitler, essa linha de ação
acarretava o risco de forçar os russos a um retraimento
geral para o leste, saindo do alcance das divisões
invasoras. Como Brauchitsch e Halder concordaram com
ele quanto à importância de evitar esse
risco, e como Hitler concordou com os dois quanto à
importância de destruir o grosso das forças
do inimigo o mais cedo possível com um "Kesselschlacht"
(manobra de envolvimento), foi adiada uma decisão
sobre os objetivos seguintes até que a primeira
fase da invasão terminasse.
Brauchitsch, com sua tendência de evitar problemas
em seu relacionamento com Hitler, sujeitava-se a ter
que enfrentar problemas mais graves no final. Neste
caso, ao adiar a questão dos objetivos da segunda
fase, as dificuldades surgiram em meio à campanha.
Além disso, fica evidente da leitura da diretriz
original para a operação "Barbarossa"
aprovadas e expedidas por Hitler a 18 de dezembro de
1940, que as idéias do Führer tinham sido
claras, e que Brauchitsch submetera-se a elas.
Na diretriz os objetivos eram assim definidos:
"Na zona de operações, dividida pelos
Pântanos de Pripet em dois setores, um ao sul
e outro ao norte, o esforço principal será
feito ao norte. Dois grupos de exército atuarão
aí.
O grupo de exércitos mais ao
sul desses dois - o do centro, considerando-se a frente
como um todo - terá a missão de aniquilar
as forças do inimigo na Rússia Branca,
atacando a partir da região em torno e ao norte
de Varsóvia com forças blindadas e motorizadas
especialmente fortes.
Isto tornará possível
deslocar fortes elementos móveis para o norte
a fim de cooperar com o Grupo de Exércitos Norte
na destruição das forças do inimigo
que combaterem nos paises bálticos - o Grupo
Norte atacando a partir da Prússia Oriental na
direção geral de Leningrado. Só
depois de ter cumprido essa importantíssima missão,
que deve ser seguida pela ocupação de
Leningrado e Kronstadt, é que terão prosseguimento
as operações ofensivas objetivando a conquista
de Moscou - como centro focal de ligações
e da indústria de armamento.
Apenas um colapso surpreendentemente
rápido da resistência russa poderia justificar
a tentativa de atingir os dois objetivos simultaneamente.
O Grupo de Exércitos do Sul deverá realizar
seu esforço principal na direção
geral Lublin-Kiev, a fim de penetrar profundamente no
flanco e retaguarda das forças russas e depois
empurrá-las no rio Dnieper." Mais uma vez,
na conferência do dia 3 de fevereiro, quando Halder
expôs o plano do Alto Comando do Exército
em detalhe, Hitler encerrou os trabalhos enfatizando:
"Durante a execução deste plano deve
ser lembrado que o objetivo principal é o domínio
dos Países Bálticos e de Leningrado".

O malogro da invasão
A questão explorada a seguir foi como o plano
saiu errado. A resposta de Kleist foi: "A principal
causa do nosso fracasso foi o inverno ter chegado mais
cedo aquele ano, associado ao modo como os russos cediam
terreno repetidamente em vez de se deixarem arrastar
a uma batalha decisiva como a que procurávamos".
Rundstedt concordou com Kleist, acrescentando: "Mas
muito antes do inverno as chances tinham diminuído
por causa dos repetidos atrasos na progressão,
devidos às péssimas estradas e à
lama. A 'terra preta' da Ucrânia transforma-se
em lama com dez minutos de chuva - interrompendo todo
o movimento até secar. Isso foi uma séria
desvantagem em uma corrida contra o relógio,
tornada mais grave pela falta de ferrovias na Rússia
- para trazer os suprimentos de nossas tropas. Outro
fator adverso foi o modo como os russos recebiam continuamente
reforços de suas áreas de retaguarda,
à medida que recuavam. Tínhamos a impressão
de que assim que uma tropa era destruída, o caminho
era bloqueado pela chegada de outra".
Blumentritt endossou esses veredictos,
exceto quanto ao ponto de os russos cederem terreno.
No caminho de Moscou, que era o eixo principal de progressão,
eles repetidamente resistiram tempo bastante para serem
cercados. Mas os invasores, por sua vez, muitas vezes
deixaram de cercá-los por terem, eles próprios,
ficado imobilizados. "A má qualidade das
estradas era o pior handicap, vindo logo depois a inadequação
das ferrovias, mesmo quando reparadas. Nossas informações
falharam em ambos os casos, e subestimaram as conseqüências.
Além disso, a restauração do tráfego
ferroviário foi atrasada pela mudança
de bitola em território russo. O problema do
suprimento na campanha russa era muito sério,
complicado pelas condições locais".
Não obstante isso, Blumentritt
considerava que Moscou poderia ter sido conquistada
se tivesse sido adotado o nada ortodoxo plano de Guderian,
ou se Hitler não tivesse perdido um tempo importantíssimo
com sua indecisão. Outro fator, realçado
por Kleist, foi que os alemães não tinham
uma vantagem no ar tão definitiva como a desfrutada
na invasão da frente ocidental, em 1940. Embora
tivessem infligido pesadas baixas à Força
Aérea Russa, a um ponto tal que desequilibraram
a balança numérica a seu favor, a menor
oposição no ar foi anulada pelo alongamento
da coluna à qual tinha de ser prestado apoio
aéreo. Quanto mais depressa progrediam no terreno,
mais complicado o problema.
Falando a esse respeito, disse Kleist: "Em diversas
fases do avanço, minhas forças Panzer
foram prejudicadas pela falta de cobertura aérea,
em razão da grande distância dos campos
de pouso dos caças, muito à retaguarda.
Além disso, a superioridade aérea que
desfrutamos nos meses iniciais, era mais local que geral.
Devia-se à maior competência dos nossos
pilotos, não a uma esmagadora superioridade numérica".
Essa vantagem desapareceu quando os russos ganharam
experiência e puderam substituir os aviões
abatidos.
Além desses fatores básicos
havia, na opinião de Rundstedt, um defeito no
dispositivo inicial alemão que gerou más
conseqüências já no decurso das operações,
após o rompimento da posição defensiva
russa. De acordo com o plano do comando supremo uma
brecha larga foi deixada entre o flanco esquerdo de
Rundstedt e o direito de Bock, em frente à extremidade
ocidental dos Pântanos de Pripet. A idéia
era que aquela região podia ser negligenciada,
graças à natureza do terreno, com o máximo
esforço concentrado ao norte e ao sul dos alagadiços.
Rundstedt duvidou da sabedoria dessa solução
quando o plano estava sendo debatido: "Graças
à minha experiência na Frente Oriental
em 1914-1918 antecipei que a cavalaria russa seria capaz
de atuar nos Pântanos de Pripet, e por isso senti-me
ansioso com aquela brecha em nossa frente de ataque,
já que por ali os russos poderiam realizar ataques
de flanco".
Na primeira fase da invasão
esse risco não se materializou. Depois que o
6º Exército de Reichenau forçou a
travessia do Bug, ao sul dos Pântanos, os blindados
de Kleist atravessaram e seguiram velozmente adiante,
conquistando Luck e Rovno. Mas depois de cruzarem a
antiga fronteira russa e já seguindo para Kiev,
os invasores sofreram um violento contra-ataque de flanco
realizado pelo corpo de cavalaria, que emergiu de repente
dos Pântanos Pripet. Foi uma situação
perigosa, e embora a ameaça viesse a ser eliminada
após um difícil combate, retardou a progressão
e liquidou a chance de os alemães chegarem mais
cedo no Dnieper.
Embora não seja difícil ver como essa
interrupção pesou na mente de Rundstedt,
não é tão claro o entendimento
de como possa ter influído nas perspectivas gerais
da invasão. Afinal, não houve qualquer
interferência similar opondo-se ao avanço
de Bock, ao norte dos Pântanos Pripet e onde ficava
o centro de gravidade de toda a ofensiva.
Um quadro claro da ofensiva foi dado pelo general Heinrici,
que delineou os deslocamentos em um mapa. Sua capacidade
militar é comprovada pelo fato de que, começando
como comandante de corpo, terminou conduzindo a batalha
final de Oder, em defesa de Berlim. O esquema que fez
da operação foi completado mais tarde
com outros detalhes e revelações de bastidores
dados pelo general Blumentritt, chefe de estado-maior
do exército de Kluge na progressão de
Brest-Litovsk para Moscou. Mais tarde, outros generais
que estavam naquele eixo de progressão suplementaram
a narrativa e em alguns pontos a corrigiram.
O plano, resumidamente, era cercar o grosso das forças
russas com uma vasta manobra de envolvimento - os corpos
de Infantaria deslocando-se em um círculo interior,
e dois grandes grupos Panzer no círculo exterior.
Os grupos Panzer eram comandados por Guderian e Hoth.
O de Guderian compreendia três corpos Panzer,
e um corpo de infantaria que foi colocado sob o seu
comando a fim de cercar a fortaleza de Brest, na fronteira.
Duas outras divisões de infantaria foram dadas
a ele depois, a fim de colaborar na parte inicial da
transposição do Bug. O grupo Panzer era,
na verdade, um exército Panzer - nome como foi
rebatizado em uma fase posterior da campanha - mas no
início, e de forma intermitente, foi colocado
sob o comando do exército de infantaria de apoio.
O relacionamento mal definido provou ser causa de problemas.
O desencadeamento da invasão pegou as forças
russas da fronteira completamente de surpresa, e o Bug
foi transposto sem dificuldade. Inúmeros tanques
de Guderian tinham sido adaptados para atravessar o
leito do rio por baixo d'água, "respirando"
através de um tubo comprido como os submarinos
equipados com Schnorkel, mais para o fim da guerra.
As fortificações defensivas russas na
área mais distante estavam em grande parte desguarnecidas,
e logo as divisões Panzer lançavam-se
à frente, atravessando campo aberto. À
noite, algumas tinham avançado tanto quanto 80
km. À medida que iam avançando iam encontrando
mais resistências, embora quase sempre pudessem
desbordá-las.
No dia 24, o 47º Corpo Panzer (Lemelsen) travou
alguns combates violentos em Slonim com poderosas forças
russas que tentavam romper o cerco que as ameaçava,
fugindo da área de Bialystck. As pinças
Panzer encontraram-se em Minsk. A ala direita de Hoth,
que partira da Prússia Oriental, atingiu as cercanias,
mais ao norte, no dia 26. Lemelsen, que teve que andar
mais, uniu-se a ele no dia 27, tendo coberto mais de
300 km em cinco dias e meio. A cidade caiu no dia seguinte.
Enquanto isso, o 24º Corpo Panzer (Geyr von Schweppenburg)
prosseguira a corrida e chegara no Beresina naquele
dia mesmo, conquistando uma cabeça-de-ponte naquele
rio histórico. Seguiu então para o Dnieper,
mas descobriu que os russos tinham cerrado reservas
para defendê-lo.
Bem mais à retaguarda, as pinças da infantaria
tinham se fechado em Slonim, mas não completamente,
a tempo de pegar o grosso dos russos em seu retraimento
do bolsão de Bichystok. Uma segunda tentativa,
destinada a cercá-los perto de Minsk, teve mais
sucesso e foram aprisionados mais de 300.000 homens
- não obstante já terem se salvado grandes
efetivos antes do cerco ser completado.
O tamanho da área cercada gerou uma onda de otimismo,
mesmo entre os generais que tinham ficado apreensivos
com a decisão de Hitler. Halder comentou sobre
o dia 3 de julho: "Talvez não seja um exagero
afirmar que a campanha contra a Rússia foi ganha
em quatorze dias". Mas a operação
fizera surgir sérias divergências a respeito
de métodos entre os generais comandantes. Guderian
e Hoth tinham partido de Minsk, de acordo com as instruções
originais, deixando para trás destacamentos mínimos
destinados a apoiar a infantaria no fechamento do cerco.
Kluge desejara interromper a progressão e empregar
todas as forças Panzer naquela tarefa. Mas elas
já tinham saído, e suas indesejadas contra-ordens,
muito convenientemente, não puderam ser transmitidas.
Kluge apelou então para Bock,
que cedeu à sua vontade de trazê-las de
volta. Brauchitsch teria preferido que os grupos Panzer
continuassem progredindo, mas foi dissuadido da idéia
de passar por cima de Bock e Kluge quando Hitler colocou
todo o peso da sua autoridade do lado deles. Assim,
a 3 de julho, os dois grupos Panzer foram colocados
sob o controle de Kluge. Mas o grande efetivo de russos
cercado a oeste de Minsk rendeu-se no mesmo dia, e os
grupos Panzer foram liberados de novo. Guderian decidiu
então tentar a travessia do rio Dnieper sem mais
delongas, não esperando uma ou duas semanas até
aparecer o 4º Exército, a pé - ou
que os russos tivessem tido tempo de receber reforços.
Para a travessia, ele concentrou suas forças,
protegido pela escuridão da noite e em três
pontos desguarnecidos. Ao saber de suas intenções,
Kluge foi vê-lo e mais uma vez tentou freá-lo
- mas ao verificar que estava tudo pronto para a tentativa,
concordou.
A operação teve pleno êxito, e após
cruzar o Dnieper a 10 de julho, Guderian seguiu para
Smolensk, sem se deixar deter por fortes contra-ataques
russos dirigidos aos flancos de sua coluna. A vanguarda
da esquerda atingiu Smolensk a 16 de julho, enquanto
a do centro chegou em Desna e conquistou Elnya no dia
20. O progresso da vanguarda da direita foi retardado
pelos contra-ataques de fortes elementos russos atuando
ao norte do Dnieper e a partir de Gomel. A invasão
agora penetrara mais de 600 km em território
russo. Moscou estava a 320 km de distância. Para
uma penetração tão profunda, o
ritmo tinha sido muito rápido, embora a segunda
fase, de Minsk a Smolensk, tivesse tomado quase três
semanas em vez dos cinco dias da primeira fase.
Com a chegada de Hoth ao norte de Smolensk, foi iniciada
nova manobra de envolvimento destinada a isolar os grandes
efetivos russos que tinham sido desbordados pelos blindados
alemães entre o Dnieper e o Desna. O cerco quase
foi completado, mas o solo lamacento e difícil
prejudicou o movimento, e os russos conseguiram salvar
uma grande parte de suas forças. Mesmo assim,
um total de 180.000 homens foi capturado na área
de Smolensk. Blumentritt dá-nos uma vívida
descrição das condições
nas quais a progressão tinha se realizado a partir
de Minsk, e de como essas condições se
agravaram ainda mais depois do Dnieper e de Dvina. "O
terreno era incrivelmente difícil para o movimento
dos carros de combate - grandes florestas virgens, pântanos
espalhados por áreas imensas, estradas terríveis
e pontes que não tinham capacidade para agüentar
o peso dos tanques. A defesa também foi dificultando
as coisas cada vez mais, e os russos começaram
a proteger-se com campos de minas.
Era fácil bloquear o caminho
porque havia muito poucas estradas. A grande rodovia
que vai da fronteira até Moscou estava inacabada
- a única estrada que um ocidental chamaria de
'estrada'. Não estávamos preparados para
o que encontramos, porque as nossas cartas de modo algum
correspondiam à realidade. Nelas as estradas
apareciam em vermelho e davam a impressão de
serem muitas, mas com freqüência não
passavam de meros caminhos de terra. O serviço
de informação alemão foi razoavelmente
preciso a respeito das condições no território
da Polônia ocupada pelos russos, mas pecou muito
quanto às condições além
da fronteira original. Se essas condições
eram ruins para os carros de combate, mostravam-se bem
piores para as viaturas que os acompanhavam transportando
combustível, suprimentos e toda a tropa de apoio
necessária. Quase todas essas viaturas eram sobre
rodas, que não podiam deslocar-se fora das estradas
e nem nas estradas, se a terra se transformasse em lama.
Uma ou duas horas de chuva imobilizavam as forças
Panzer.
Era uma visão extraordinária,
uma coluna de mais de 150 km de extensão parada
- até que o sol saísse e a lama secasse.
Hoth, que progredia a partir do setor de Orsha-Nevel,
foi retardado tanto pelos lamaçais quanto pelas
pancadas de chuva. Guderian avançou rapidamente
até Smolensk, mas depois enfrentou problema semelhante
". Guderian confirmou o que Blumentritt dissera
a respeito da inexatidão das cartas alemãs,
e mencionou também as dificuldades causadas pelas
regiões lamacentas, mas enfatizou que o tempo
foi bom nas primeiras semanas da ofensiva. "O que
nos atrasou mais naquela oportunidade foram as dúvidas
do marechal von Kluge, que se mostrava inclinado a deter
o avanço dos blindados a cada dificuldade surgida
na retaguarda".
O papel de Kluge detendo o movimento não foi
lembrado por Blumentritt - provavelmente pela lealdade
que dedicava ao antigo chefe. Mas Blumentritt foi o
primeiro a revelar que, desde o início, houve
um conflito de idéias a respeito do método
a ser empregado na operação. Relatando
como as coisas se passaram, disse que Hitler e a maioria
dos generais mais graduados estavam de acordo quanto
a planejar batalhas de envolvimento, segundo os princípios
da estratégia ortodoxa. "Mas Guderian tinha
uma idéia diferente - penetrar fundo, o mais
rápido possível, e deixar o cerco do inimigo
para ser realizado pela infantaria de acompanhamento.
Guderian insistia na importância de conservar
os russos engajados, sem dar-lhes tempo para realizar
incursões. Queria ir direto até Moscou,
e estava convencido de que podia chegar lá se
não houvesse perda de tempo. A resistência
russa podia ter sido imobilizada com um golpe bem no
centro do poder de Stalin.
"O plano de Guderian era muito
ousado - e significava grandes riscos relativos aos
itens: reforços e suprimentos. Mas poderia ter
sido o menor dos riscos. Parar os blindados cada vez
que desbordavam forças inimigas para executar
um movimento envolvente em torno delas, representava
muito tempo perdido. "Depois que atingimos Smolensk
houve uma parada de diversas semanas no Desna. A causa
foi, em parte, a necessidade de receber suprimentos
e reforços, mas foi principalmente um novo conflito
de opiniões dentro do comando alemão -
a respeito do futuro da campanha.
Houve discussões intermináveis:
Bock queria seguir para Moscou. Endossando os pontos
de vista de Guderian e Hoth, confiava que outra penetração
profunda executada pelas vanguardas blindadas conseguiria
chegar em Moscou. Mas Hitler julgou que chegara a hora
de levar a efeito sua concepção original,
classificando Leningrado e a Ucrânia como objetivos
principais. Embora lhes atribuindo importância
maior que a de Moscou, não pensava apenas nos
efeitos econômicos e políticos como a maioria
dos generais que o criticavam tendia a pensar.
Ele parece ter visualizado uma operação
de dimensões supergigantescas, do tipo da batalha
de Canas, em que a ameaça já criada a
Moscou atrairia as reservas russas para aquele setor
da frente, tornando assim mais fácil a conquista
dos objetivos de flanco, Leningrado e Ucrânia.
E dessas posições de flanco suas forças
convergiriam sobre Moscou, que cairia como uma ameixa
madura em suas mãos. Era uma concepção
sutil e grandiosa. Frustrou-se por causa do fator tempo
- porque a resistência russa foi mais obstinada
e o tempo pior do que se esperara, enquanto que Hitler
não estava preparado para adiar um ano a sua
realização. E é evidente, também,
que as perspectivas não melhoraram com as diferenças
de opinião tão comum entre os generais.
A 19 de julho Hitler expediu uma diretriz
para a fase seguinte - a ter início assim que
terminassem as operações de limpeza do
terreno entre o Dnieper e o Desna. Parte das forças
motorizadas de Bock seria desviada para o sul a fim
de auxiliar Rundstedt a destruir os exércitos
russos que se defrontavam com ele, enquanto a outra
parte seguiria para o norte, com a finalidade de reforçar
o ataque de Leeb a Leningrado, cortando as ligações
entre aquela cidade e Moscou. Bock seria deixado apenas
com a infantaria a pé para continuar a progressão
frontal sobre Moscou da melhor forma que pudesse.
Uma vez mais Brauchitsch contemporizou,
em vez de pressionar imediatamente por um outro plano.
Alegou que antes que qualquer outra operação
começasse, as forças Panzer teriam que
parar para manutenção dos motores e receber
recompletamentos. Hitler concordou quanto à necessidade
de uma parada dessas. Mas a resistência russa
e os contra-ataques retardaram a limpeza da área
a oeste do Desna, e não foi senão no início
de agosto que as forças Panzer puderam ter um
descanso. Em uma reunião no dia 4, Bock defendeu
a idéia de progredir logo sobre Moscou, e Guderian
afirmou que estaria pronto a iniciar o deslocamento
no dia 15. Hitler enfatizou, contudo, que Leningrado
ainda era seu objetivo principal e que depois de conquistá-la
decidiria entre Moscou e a Ucrânia - ele estava
inclinado a decidir-se pela última, pois abriria
caminho para a conquista da Criméia e das bases
aéreas lá existentes, que ele considerava
uma potencial fonte de perigo para os campos petrolíferos
romenos.

Perante Moscou
Um amargurado relato de Guderian sobre suas relações
com Hitler e o OKH durante a Barbarrossa, diante a capital
soviética.
À 14 de junho, Hitler reuniu
os seus oficiais em Berlim, a fim de lhes explicar os
motivos que o levaram a atacar a Rússia. Dada
a impossibilidade de derrotar a Inglaterra, tinha de
triunfar no continente. Entretanto, as posições
alemãs na Europa não serão inexpugnáveis
enquanto a Rússia não for esmagada...
Estas justificações de guerra preventiva
contra a Rússia não eram convincentes.
Enquanto a luta prosseguia no Oeste, toda e qualquer
nova empresa militar conduziria a guerra em duas frentes.
Em 1914 esta mesma situação havia conduzido
a derrota e a Alemanha de Adolf Hitler não parecia
mais bem armada do que a do Kaiser. Por isso a assembléia
acolheu sem comentários o discurso de Hitler,
no meio de uma atmosfera muito tensa. Nenhum intercâmbio
de opiniões se produziu e nos separamos em silêncio.
Antes de descrevermos os acontecimentos,
lancemos uma olhada sobre a situação de
conjunto do Exército alemão no começo
desta decisiva campanha da Rússia.
Segundo as informações
de que disponho, as 205 divisões alemãs
distribuíam-se a 28 de junho de 1941 da seguinte
maneira: no Oeste tinham ficado 38 divisões,
12 achavam-se na Noruega, 12 na Dinamarca, 7 nos Balcãs,
2 na Líbia; assim, pois, 145 divisões
estavam disponíveis para a campanha do Leste.
Tal divisão das forças demonstrava um
lamentável desperdício do seu poder. A
cifra de 38 divisões para o Oeste mais 12 para
a Noruega parecia exagerada. Além disto, a campanha
dos Balcãs foi a causa da demora do ataque à
Rússia.
Mas subestimar o adversário
russo teve outro efeito ainda mais grave: as informações
do exército, principalmente as do General Koestring,
nosso excelente adido militar em Moscou, sobre a potência
militar do gigantesco império soviético,
encontravam tão pouco crédito em Hitler
como as da produção industrial e da solidez
interna do regime. Em contrapartida, Hitler tinha sabido
transmitir o seu otimismo irrefletido à sua esfera
de relações militares e o OKW e o OKH,
convencidos de que a campanha iria terminar antes do
começo do inverno, não tinham previsto
equipamento apropriado para o exército, senão
na proporção de um homem em cada cinco.
Até 30 de agosto de 1941, o
OKH não se ocupou seriamente de dotar com este
equipamento as unidades mais importantes. Não
posso de forma alguma admitir uma afirmação
que se ouve agora de vez em quando: Hitler foi o único
culpado de que faltassem roupas de inverno às
forças terrestres em 1941. A Luftwaffe e as Waffen
SS estavam, com efeito, amplamente providas e tinham
recebido este equipamento na época devida. Mas
o Estado-Maior sonhava vencer militarmente a Rússia
em sete ou dez semanas e provocar depois a sua derrocada
política. Tão firmemente confiava neste
projeto quimérico que, ainda em 1941, se operou
a reconversão da indústria que trabalhava
para o exército e para outros setores da economia.
Inclusive pensou-se fazer voltar à Alemanha,
no princípio do inverno, 60 a 80 divisões
do Leste, na certeza de que o resto das forças
bastaria para conter a Rússia durante a estação
fria. Quanto às tropas que ficassem na Rússia,
assim que terminassem as operações do
outono, pretendia-se que invernassem em bons quartéis,
numa linha de apoio. Tudo, até então,
parecia muito simples e correndo às mil maravilhas.
Repudiaram-se as objeções, com otimismo.
A narração dos acontecimentos demonstra
quão longe da dura realidade estavam estes projetos.
Mencionamos ainda outro assunto que,
mais adiante, foi muito prejudicial para o prestígio
alemão. Pouco antes do início das hostilidades,
uma ordem do OKW, sobre o tratamento que devia ser dado
às populações civis e aos prisioneiros
na Rússia, foi transmitido diretamente aos corpos
de exército. Já não era obrigatório
aplicar o código de justiça militar para
sancionar as sevícias cometidas contra a população
civil e os prisioneiros de guerra, mas sim que cada
caso devia ser submetido à apreciação
dos superiores. Esta ordem podia prejudicar gravemente
a disciplina. Proibi divulgá-la entre as minhas
divisões e ordenei a sua devolução
a Berlim.
Outra ordem, igualmente injusta, dispunha
a execução imediata dos comissários
políticos, isto é, dos membros do Partido
Comunista destacados junto dos chefes militares capturados.
Se bem que, segundo parece, foi recebida no Grupo de
Exércitos do Centro, jamais chegou ao conhecimento
das minhas unidades. Retrospectivamente, não
podemos senão lamentar que estas ordens não
tivessem sido anuladas pelo OKW e o OKH, evitando o
desprestígio do bom nome alemão e os amargos
sofrimentos de soldados irrepreensíveis. Pouco
importa que os russos tivessem ou não aderido
aos convênios de Haia, que tivessem reconhecido
ou não a Convenção de Genebra;
os soldados alemães deviam ajustar a sua atitude
a estas prescrições internacionais e aos
imperativos da fé cristã. Mesmo sem estas
ordens excessivas, já a guerra ia pesar duramente
sobre a população civil russa, a qual
tinha tão pouca responsabilidade como a nossa
no desencadear das hostilidades.
Assim, pois, a 22 de junho, as tropas
alemãs cruzaram a fronteira. Em algumas semanas
realizaram um enorme avanço. No centro, Smolensk
foi tomada no correr do mês de julho. Moscou estava
só a 300 quilômetros. Ao norte, os exércitos
marchavam firmemente em direção a Leningrado,
enquanto que, ao sul, ameaçavam Kiev. A 23 de
agosto fui chamado a uma conferência do grupo
de exércitos. O chefe do Alto Estado-Maior do
exército, General Halder, assistiu à reunião.
Comunicou-me que, daí para o futuro, Hitler estava
disposto a renunciar às operações
previstas, tanto sobre Leningrado como sobre Moscou.
Queria apoderar-se antes de mais nada da Ucrânia
e da Criméia. Discutiu-se largamente sobre a
maneira de modificar a "inquebrantável decisão
de Hitler''. Considerávamos unanimemente que
a solução, adotada já irrevogavelmente,
de dirigir o nosso esforço sobre Kiev nos levaria
inevitavelmente a uma campanha de inverno e provocaria
as complicações que o OKH queria evitar
a todo o custo.
Depois de longas e estéreis
discussões, o General Von Bock propôs que
eu acompanhasse o General Halder ao Quartel-General
do Führer para lhe expor a nossa posição.
Como vinha diretamente da frente, pensei que os meus
argumentos teriam mais peso e poderia conseguir que
nos permitisse fazer um último ataque contra
Moscou. Aceitou-se o projeto; partimos no meio da tarde
e à hora do crepúsculo aterrissamos no
aeródromo do Loetzen, na Prússia Oriental.
Fui ver Hitler. Ante um vasto auditório
em que tomavam parte Keitel, Jodl, Schmundt e outros
generais do Oberkommando e Wermacht (mas, infelizmente,
nenhum representante das forças terrestres),
fiz uma exposição da situação
do meu Panzergruppe, do seu estado e da configuração
do terreno. Quando terminei, Hitler perguntou-me:
- Depois do que acaba de dizer, considera as suas unidades
capazes de realizar um grande esforço?
- Sim, desde que se fixe às tropas um objetivo
cuja importância possa ser compreendida por qualquer
soldado - respondi.
- Evidentemente, está pensando em Moscou - replicou
Hitler.
- Sim - disse - e, já que abordou o tema, permita-me
que lhe explique as minhas razões.
Hitler consentiu. Expus pormenorizadamente
os motivos em prol do prosseguimento das operações
sobre Moscou e contra a marcha sobre Kiev. Expliquei
que, do ponto de vista militar, o mais importante era
distrair as forças combatentes do inimigo, já
muito debilitadas nos últimos encontros. Descrevi
a importância geográfica da capital da
Rússia. Ao contrário de Paris, na França,
Moscou não era somente o centro da rede de transportes
e transmissões e o coração político
do país, mas também uma importante zona
industrial; a sua queda causaria grande impressão,
tanto no povo russo como no mundo. Falei do moral das
tropas, que só esperavam a ordem de marchar sobre
Moscou e tinham-se preparado entusiasticamente para
isso.
Tentei demonstrar que, uma vez iniciado
o ataque na direção decisiva, os territórios
da Ucrânia, tão importantes do ponto de
vista econômico, cairiam em nosso poder como fruta
madura, pois os deslocamentos, de norte a sul, dos russos
iriam complicar-se notavelmente por causa da desorganização
que a tomada de Moscou causaria nas suas comunicações.
Descrevi o estado das estradas no setor da ofensiva
que me tinha sido designada e as dificuldades de abastecimento,
que aumentariam de dia para dia, no caso de avançarmos
sobre a Ucrânia. Mencionei, finalmente, os graves
problemas que suscitaria uma demora nas operações.
Se estas tinham de prosseguir durante o período
de mau tempo, seria então demasiado tarde para
levar a cabo os projetos do Estado-Maior e assestar
o golpe decisivo sobre Moscou antes de terminar 1941.
Hitler deixou-me falar sem uma só
interrupção; depois tomou a palavra e
explicou com todo o pormenor por que tinha preferido
adotar outra decisão. As matérias-primas
e a base de abastecimentos da Ucrânia, explicou
em particular, eram de vital importância para
a continuação da guerra. A partir daí,
continuou a sublinhar a importância da Criméia,
"porta-aviões natural que podia servir à
União Soviética para lançar-se
sobre o petróleo romeno". Era preciso eliminá-la
do jogo. Pela primeira vez ouvi a frase "os meus
generais não entendem nada da economia da guerra''.
Pela primeira vez fui testemunha de uma cena que iria
repetir-se freqüentemente: todos os presentes aprovavam
cada frase de Hitler e eu encontrei-me só frente
a ele. Ante o bloco compacto da OKW, neutralizando-me,
renunciei a lutar naquele dia, pois nessa época
ainda acreditava que ninguém se podia permitir
fazer uma cena violenta ao chefe supremo do Reich em
presença dos seus ajudantes.
Passava da meia-noite quando regressei aos meus alojamentos.
A 24 pela manhã, fui ver o chefe do Alto Estado-Maior
do exército e informei-o do fracasso da última
tentativa para mudar a opinião de Hitler. De
acordo com as ordens do Führer, a Batalha de Kiev
desencadeou-se a 25 de agosto. Os combates terminaram
vitoriosamente a 16 de setembro. Os russos capitularam.
O número de prisioneiros elevou-se a 665.000
homens. O comandante-chefe da frente sudoeste e o seu
chefe de Estado-Maior pereceram nos últimos encontros,
tentando perfurar as nossas linhas. O general que comandava
o V Exército foi feito prisioneiro. Tive com
ele uma conversa interessante:
- Quando é que soube que os meus blindados se
moviam na sua retaguarda?
- Por volta de 8 de setembro.
- Por que é que não evacuou Kiev naquele
momento?
- Tínhamos recebido a ordem de evacuar e de nos
retirarmos para leste e já nos dispúnhamos
a cumpri-la quando uma contra-ordem nos obrigou a fazer
frente novamente ao inimigo e a defender Kiev a todo
custo.
A execução da contra-ordem
teve como conseqüência o aniquilamento daquele
grupo de exércitos. Ficamos surpresos com semelhante
intervenção. O inimigo não voltou
a repeti-la; mas nós padecemos, desgraçadamente,
as piores intervenções do mesmo gênero.
Sem dúvida que esta vitória representava
um grande êxito tático, mas era duvidoso
que produzisse conseqüências estratégicas
de importância. Isso dependia de uma coisa: conseguiriam
os alemães obter resultados decisivos antes do
inverno e, inclusive, antes que, já iniciado
o outono, a terra se convertesse num lamaçal?
De imediato tinha sido preciso renunciar ao ataque projetado
para apertar o cerco de Leningrado. Entretanto, o Oberkommando
das forças terrestres achava que o adversário
já não estava em condições
de opor aos exércitos do Sul uma frente coerente
e capaz de oferecer uma séria resistência.
Com aquele grupo de exércitos poderia, pois,
conquistar a Bacia do Donetz e chegar ao Don antes do
inverno.Mas Moscou constituía o ponto onde era
preciso assestar o golpe principal com o reforço
de exércitos do Centro. Teríamos tempo
para isso?
A ofensiva sobre Orel-Briansk representava
a fase preliminar do ataque a Moscou. Uma vez mais concluiu
vitoriosamente a batalha; teríamos forças
para prosseguir o ataque e explorar o triunfo? Esta
era a interrogação mais grave até
agora para o comandante supremo.
Enquanto as operações
de inverno prosseguiam deste modo, nos preocupávamos
em alimentar a Alemanha, os nossos exércitos
e a população civil russa. Depois das
abundantes colheitas do outono de 1941, existiam em
todo o país grandes quantidades de cereais panificáveis.
Também não havia escassez de gado para
o matadouro. As necessidades da tropa foram cobertas
e, como o lamentável estado das linhas férreas
até a primavera de 1942 impedia o II Exército
Blindado de enviar estes produtos à Alemanha,
foram entregues à população, especialmente
à de Orel. Algumas fábricas desta cidade,
cuja maquinaria não pôde ser retirada pelos
russos, entraram de novo em serviço para cobrir
as necessidades do exército e dar trabalho à
população civil. Isto aconteceu com uma
fábrica de Folha-de-flandres e com oficinas que
trabalhavam couro e feltro para o fabrico de calçado.
Quanto ao estado de ânimo da
população russa, reflete-se numa conversa
que tive em Orel, durante esse período, com um
velho general do Czar: "Se tivessem vindo há
vinte anos, nós os teríamos acolhido com
entusiasmo'', disse-me".Mas agora é demasiado
tarde. Chegam quando começamos a viver e nos
fazem retroceder de novo vinte anos; temos de refazer
tudo desde o princípio. Agora combatemos pela
Rússia e estamos todos unidos na luta.'' Além
disto, quando os comissários do Reich, todos
eles funcionários nazistas, substituíram
a administração militar, arranjaram as
coisas de modo a anular em pouco tempo toda a possível
simpatia pelos alemães e preparar assim a praga
dos guerrilheiros.
Fonte deste artigo: Grandes Crônicas
da Segunda Guerra - General Heinz Guderian - Seleções
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