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As digressões do alto comando alemão na Barbarossa


Como agiu o alto-comando alemão e suas divergências internas durante a invasão da Rússia, a operação Barbarossa, em 1941.

É natural que uma certa nebulosidade prejudique o entendimento das situações vividas em tempo de guerra. Em 1941, contudo, havia uma camada extra nessa neblina que afetou em muito o curso dos acontecimentos. Isto porque no mais elevado quartel-general do exército invasor, uma surpreendente nebulosidade não permitia que se vissem direito os objetivos a serem alcançados. Hitler e o comando do Exército tinham idéias diferentes, desde o início do planejamento, e nunca chegaram a harmonizá-las.

Hitler queria conquistar Leningrado como objetivo básico, limpando assim o flanco do Báltico e ligando-se com a Finlândia, e também tendia a reduzir a importância de Moscou. Por outro lado, com seu agudo senso dos fatores econômicos, ele queria também conquistar a região agrícola da Ucrânia e a área industrial do baixo Dnieper. Os dois objetivos eram extremamente afastados, o que resultava em duas faixas de atuação inteiramente separadas. Tudo muito diferente da flexibilidade que resultaria da atuação em uma faixa única e central que ameaçasse objetivos alternativos.

Brauchitsch e Halder queriam concentrar esforços no eixo de progressão sobre Moscou - não por causa da conquista da capital, mas porque sentiam que esse eixo oferecia uma boa chance para destruir o grosso das forças russas que eles "esperavam encontrar no caminho de Moscou". No ponto de vista de Hitler, essa linha de ação acarretava o risco de forçar os russos a um retraimento geral para o leste, saindo do alcance das divisões invasoras. Como Brauchitsch e Halder concordaram com ele quanto à importância de evitar esse risco, e como Hitler concordou com os dois quanto à importância de destruir o grosso das forças do inimigo o mais cedo possível com um "Kesselschlacht" (manobra de envolvimento), foi adiada uma decisão sobre os objetivos seguintes até que a primeira fase da invasão terminasse.

Brauchitsch, com sua tendência de evitar problemas em seu relacionamento com Hitler, sujeitava-se a ter que enfrentar problemas mais graves no final. Neste caso, ao adiar a questão dos objetivos da segunda fase, as dificuldades surgiram em meio à campanha. Além disso, fica evidente da leitura da diretriz original para a operação "Barbarossa" aprovadas e expedidas por Hitler a 18 de dezembro de 1940, que as idéias do Führer tinham sido claras, e que Brauchitsch submetera-se a elas.
Na diretriz os objetivos eram assim definidos:
"Na zona de operações, dividida pelos Pântanos de Pripet em dois setores, um ao sul e outro ao norte, o esforço principal será feito ao norte. Dois grupos de exército atuarão aí.

O grupo de exércitos mais ao sul desses dois - o do centro, considerando-se a frente como um todo - terá a missão de aniquilar as forças do inimigo na Rússia Branca, atacando a partir da região em torno e ao norte de Varsóvia com forças blindadas e motorizadas especialmente fortes.

Isto tornará possível deslocar fortes elementos móveis para o norte a fim de cooperar com o Grupo de Exércitos Norte na destruição das forças do inimigo que combaterem nos paises bálticos - o Grupo Norte atacando a partir da Prússia Oriental na direção geral de Leningrado. Só depois de ter cumprido essa importantíssima missão, que deve ser seguida pela ocupação de Leningrado e Kronstadt, é que terão prosseguimento as operações ofensivas objetivando a conquista de Moscou - como centro focal de ligações e da indústria de armamento.

Apenas um colapso surpreendentemente rápido da resistência russa poderia justificar a tentativa de atingir os dois objetivos simultaneamente. O Grupo de Exércitos do Sul deverá realizar seu esforço principal na direção geral Lublin-Kiev, a fim de penetrar profundamente no flanco e retaguarda das forças russas e depois empurrá-las no rio Dnieper." Mais uma vez, na conferência do dia 3 de fevereiro, quando Halder expôs o plano do Alto Comando do Exército em detalhe, Hitler encerrou os trabalhos enfatizando: "Durante a execução deste plano deve ser lembrado que o objetivo principal é o domínio dos Países Bálticos e de Leningrado".

O malogro da invasão

A questão explorada a seguir foi como o plano saiu errado. A resposta de Kleist foi: "A principal causa do nosso fracasso foi o inverno ter chegado mais cedo aquele ano, associado ao modo como os russos cediam terreno repetidamente em vez de se deixarem arrastar a uma batalha decisiva como a que procurávamos".

Rundstedt concordou com Kleist, acrescentando: "Mas muito antes do inverno as chances tinham diminuído por causa dos repetidos atrasos na progressão, devidos às péssimas estradas e à lama. A 'terra preta' da Ucrânia transforma-se em lama com dez minutos de chuva - interrompendo todo o movimento até secar. Isso foi uma séria desvantagem em uma corrida contra o relógio, tornada mais grave pela falta de ferrovias na Rússia - para trazer os suprimentos de nossas tropas. Outro fator adverso foi o modo como os russos recebiam continuamente reforços de suas áreas de retaguarda, à medida que recuavam. Tínhamos a impressão de que assim que uma tropa era destruída, o caminho era bloqueado pela chegada de outra".

Blumentritt endossou esses veredictos, exceto quanto ao ponto de os russos cederem terreno. No caminho de Moscou, que era o eixo principal de progressão, eles repetidamente resistiram tempo bastante para serem cercados. Mas os invasores, por sua vez, muitas vezes deixaram de cercá-los por terem, eles próprios, ficado imobilizados. "A má qualidade das estradas era o pior handicap, vindo logo depois a inadequação das ferrovias, mesmo quando reparadas. Nossas informações falharam em ambos os casos, e subestimaram as conseqüências. Além disso, a restauração do tráfego ferroviário foi atrasada pela mudança de bitola em território russo. O problema do suprimento na campanha russa era muito sério, complicado pelas condições locais".

Não obstante isso, Blumentritt considerava que Moscou poderia ter sido conquistada se tivesse sido adotado o nada ortodoxo plano de Guderian, ou se Hitler não tivesse perdido um tempo importantíssimo com sua indecisão. Outro fator, realçado por Kleist, foi que os alemães não tinham uma vantagem no ar tão definitiva como a desfrutada na invasão da frente ocidental, em 1940. Embora tivessem infligido pesadas baixas à Força Aérea Russa, a um ponto tal que desequilibraram a balança numérica a seu favor, a menor oposição no ar foi anulada pelo alongamento da coluna à qual tinha de ser prestado apoio aéreo. Quanto mais depressa progrediam no terreno, mais complicado o problema.

Falando a esse respeito, disse Kleist: "Em diversas fases do avanço, minhas forças Panzer foram prejudicadas pela falta de cobertura aérea, em razão da grande distância dos campos de pouso dos caças, muito à retaguarda. Além disso, a superioridade aérea que desfrutamos nos meses iniciais, era mais local que geral. Devia-se à maior competência dos nossos pilotos, não a uma esmagadora superioridade numérica". Essa vantagem desapareceu quando os russos ganharam experiência e puderam substituir os aviões abatidos.

Além desses fatores básicos havia, na opinião de Rundstedt, um defeito no dispositivo inicial alemão que gerou más conseqüências já no decurso das operações, após o rompimento da posição defensiva russa. De acordo com o plano do comando supremo uma brecha larga foi deixada entre o flanco esquerdo de Rundstedt e o direito de Bock, em frente à extremidade ocidental dos Pântanos de Pripet. A idéia era que aquela região podia ser negligenciada, graças à natureza do terreno, com o máximo esforço concentrado ao norte e ao sul dos alagadiços. Rundstedt duvidou da sabedoria dessa solução quando o plano estava sendo debatido: "Graças à minha experiência na Frente Oriental em 1914-1918 antecipei que a cavalaria russa seria capaz de atuar nos Pântanos de Pripet, e por isso senti-me ansioso com aquela brecha em nossa frente de ataque, já que por ali os russos poderiam realizar ataques de flanco".

Na primeira fase da invasão esse risco não se materializou. Depois que o 6º Exército de Reichenau forçou a travessia do Bug, ao sul dos Pântanos, os blindados de Kleist atravessaram e seguiram velozmente adiante, conquistando Luck e Rovno. Mas depois de cruzarem a antiga fronteira russa e já seguindo para Kiev, os invasores sofreram um violento contra-ataque de flanco realizado pelo corpo de cavalaria, que emergiu de repente dos Pântanos Pripet. Foi uma situação perigosa, e embora a ameaça viesse a ser eliminada após um difícil combate, retardou a progressão e liquidou a chance de os alemães chegarem mais cedo no Dnieper.

Embora não seja difícil ver como essa interrupção pesou na mente de Rundstedt, não é tão claro o entendimento de como possa ter influído nas perspectivas gerais da invasão. Afinal, não houve qualquer interferência similar opondo-se ao avanço de Bock, ao norte dos Pântanos Pripet e onde ficava o centro de gravidade de toda a ofensiva.

Um quadro claro da ofensiva foi dado pelo general Heinrici, que delineou os deslocamentos em um mapa. Sua capacidade militar é comprovada pelo fato de que, começando como comandante de corpo, terminou conduzindo a batalha final de Oder, em defesa de Berlim. O esquema que fez da operação foi completado mais tarde com outros detalhes e revelações de bastidores dados pelo general Blumentritt, chefe de estado-maior do exército de Kluge na progressão de Brest-Litovsk para Moscou. Mais tarde, outros generais que estavam naquele eixo de progressão suplementaram a narrativa e em alguns pontos a corrigiram.

O plano, resumidamente, era cercar o grosso das forças russas com uma vasta manobra de envolvimento - os corpos de Infantaria deslocando-se em um círculo interior, e dois grandes grupos Panzer no círculo exterior. Os grupos Panzer eram comandados por Guderian e Hoth. O de Guderian compreendia três corpos Panzer, e um corpo de infantaria que foi colocado sob o seu comando a fim de cercar a fortaleza de Brest, na fronteira. Duas outras divisões de infantaria foram dadas a ele depois, a fim de colaborar na parte inicial da transposição do Bug. O grupo Panzer era, na verdade, um exército Panzer - nome como foi rebatizado em uma fase posterior da campanha - mas no início, e de forma intermitente, foi colocado sob o comando do exército de infantaria de apoio. O relacionamento mal definido provou ser causa de problemas.

O desencadeamento da invasão pegou as forças russas da fronteira completamente de surpresa, e o Bug foi transposto sem dificuldade. Inúmeros tanques de Guderian tinham sido adaptados para atravessar o leito do rio por baixo d'água, "respirando" através de um tubo comprido como os submarinos equipados com Schnorkel, mais para o fim da guerra. As fortificações defensivas russas na área mais distante estavam em grande parte desguarnecidas, e logo as divisões Panzer lançavam-se à frente, atravessando campo aberto. À noite, algumas tinham avançado tanto quanto 80 km. À medida que iam avançando iam encontrando mais resistências, embora quase sempre pudessem desbordá-las.

No dia 24, o 47º Corpo Panzer (Lemelsen) travou alguns combates violentos em Slonim com poderosas forças russas que tentavam romper o cerco que as ameaçava, fugindo da área de Bialystck. As pinças Panzer encontraram-se em Minsk. A ala direita de Hoth, que partira da Prússia Oriental, atingiu as cercanias, mais ao norte, no dia 26. Lemelsen, que teve que andar mais, uniu-se a ele no dia 27, tendo coberto mais de 300 km em cinco dias e meio. A cidade caiu no dia seguinte. Enquanto isso, o 24º Corpo Panzer (Geyr von Schweppenburg) prosseguira a corrida e chegara no Beresina naquele dia mesmo, conquistando uma cabeça-de-ponte naquele rio histórico. Seguiu então para o Dnieper, mas descobriu que os russos tinham cerrado reservas para defendê-lo.

Bem mais à retaguarda, as pinças da infantaria tinham se fechado em Slonim, mas não completamente, a tempo de pegar o grosso dos russos em seu retraimento do bolsão de Bichystok. Uma segunda tentativa, destinada a cercá-los perto de Minsk, teve mais sucesso e foram aprisionados mais de 300.000 homens - não obstante já terem se salvado grandes efetivos antes do cerco ser completado.

O tamanho da área cercada gerou uma onda de otimismo, mesmo entre os generais que tinham ficado apreensivos com a decisão de Hitler. Halder comentou sobre o dia 3 de julho: "Talvez não seja um exagero afirmar que a campanha contra a Rússia foi ganha em quatorze dias". Mas a operação fizera surgir sérias divergências a respeito de métodos entre os generais comandantes. Guderian e Hoth tinham partido de Minsk, de acordo com as instruções originais, deixando para trás destacamentos mínimos destinados a apoiar a infantaria no fechamento do cerco. Kluge desejara interromper a progressão e empregar todas as forças Panzer naquela tarefa. Mas elas já tinham saído, e suas indesejadas contra-ordens, muito convenientemente, não puderam ser transmitidas.

Kluge apelou então para Bock, que cedeu à sua vontade de trazê-las de volta. Brauchitsch teria preferido que os grupos Panzer continuassem progredindo, mas foi dissuadido da idéia de passar por cima de Bock e Kluge quando Hitler colocou todo o peso da sua autoridade do lado deles. Assim, a 3 de julho, os dois grupos Panzer foram colocados sob o controle de Kluge. Mas o grande efetivo de russos cercado a oeste de Minsk rendeu-se no mesmo dia, e os grupos Panzer foram liberados de novo. Guderian decidiu então tentar a travessia do rio Dnieper sem mais delongas, não esperando uma ou duas semanas até aparecer o 4º Exército, a pé - ou que os russos tivessem tido tempo de receber reforços. Para a travessia, ele concentrou suas forças, protegido pela escuridão da noite e em três pontos desguarnecidos. Ao saber de suas intenções, Kluge foi vê-lo e mais uma vez tentou freá-lo - mas ao verificar que estava tudo pronto para a tentativa, concordou.

A operação teve pleno êxito, e após cruzar o Dnieper a 10 de julho, Guderian seguiu para Smolensk, sem se deixar deter por fortes contra-ataques russos dirigidos aos flancos de sua coluna. A vanguarda da esquerda atingiu Smolensk a 16 de julho, enquanto a do centro chegou em Desna e conquistou Elnya no dia 20. O progresso da vanguarda da direita foi retardado pelos contra-ataques de fortes elementos russos atuando ao norte do Dnieper e a partir de Gomel. A invasão agora penetrara mais de 600 km em território russo. Moscou estava a 320 km de distância. Para uma penetração tão profunda, o ritmo tinha sido muito rápido, embora a segunda fase, de Minsk a Smolensk, tivesse tomado quase três semanas em vez dos cinco dias da primeira fase.

Com a chegada de Hoth ao norte de Smolensk, foi iniciada nova manobra de envolvimento destinada a isolar os grandes efetivos russos que tinham sido desbordados pelos blindados alemães entre o Dnieper e o Desna. O cerco quase foi completado, mas o solo lamacento e difícil prejudicou o movimento, e os russos conseguiram salvar uma grande parte de suas forças. Mesmo assim, um total de 180.000 homens foi capturado na área de Smolensk. Blumentritt dá-nos uma vívida descrição das condições nas quais a progressão tinha se realizado a partir de Minsk, e de como essas condições se agravaram ainda mais depois do Dnieper e de Dvina. "O terreno era incrivelmente difícil para o movimento dos carros de combate - grandes florestas virgens, pântanos espalhados por áreas imensas, estradas terríveis e pontes que não tinham capacidade para agüentar o peso dos tanques. A defesa também foi dificultando as coisas cada vez mais, e os russos começaram a proteger-se com campos de minas.

Era fácil bloquear o caminho porque havia muito poucas estradas. A grande rodovia que vai da fronteira até Moscou estava inacabada - a única estrada que um ocidental chamaria de 'estrada'. Não estávamos preparados para o que encontramos, porque as nossas cartas de modo algum correspondiam à realidade. Nelas as estradas apareciam em vermelho e davam a impressão de serem muitas, mas com freqüência não passavam de meros caminhos de terra. O serviço de informação alemão foi razoavelmente preciso a respeito das condições no território da Polônia ocupada pelos russos, mas pecou muito quanto às condições além da fronteira original. Se essas condições eram ruins para os carros de combate, mostravam-se bem piores para as viaturas que os acompanhavam transportando combustível, suprimentos e toda a tropa de apoio necessária. Quase todas essas viaturas eram sobre rodas, que não podiam deslocar-se fora das estradas e nem nas estradas, se a terra se transformasse em lama. Uma ou duas horas de chuva imobilizavam as forças Panzer.

Era uma visão extraordinária, uma coluna de mais de 150 km de extensão parada - até que o sol saísse e a lama secasse. Hoth, que progredia a partir do setor de Orsha-Nevel, foi retardado tanto pelos lamaçais quanto pelas pancadas de chuva. Guderian avançou rapidamente até Smolensk, mas depois enfrentou problema semelhante ". Guderian confirmou o que Blumentritt dissera a respeito da inexatidão das cartas alemãs, e mencionou também as dificuldades causadas pelas regiões lamacentas, mas enfatizou que o tempo foi bom nas primeiras semanas da ofensiva. "O que nos atrasou mais naquela oportunidade foram as dúvidas do marechal von Kluge, que se mostrava inclinado a deter o avanço dos blindados a cada dificuldade surgida na retaguarda".


O papel de Kluge detendo o movimento não foi lembrado por Blumentritt - provavelmente pela lealdade que dedicava ao antigo chefe. Mas Blumentritt foi o primeiro a revelar que, desde o início, houve um conflito de idéias a respeito do método a ser empregado na operação. Relatando como as coisas se passaram, disse que Hitler e a maioria dos generais mais graduados estavam de acordo quanto a planejar batalhas de envolvimento, segundo os princípios da estratégia ortodoxa. "Mas Guderian tinha uma idéia diferente - penetrar fundo, o mais rápido possível, e deixar o cerco do inimigo para ser realizado pela infantaria de acompanhamento. Guderian insistia na importância de conservar os russos engajados, sem dar-lhes tempo para realizar incursões. Queria ir direto até Moscou, e estava convencido de que podia chegar lá se não houvesse perda de tempo. A resistência russa podia ter sido imobilizada com um golpe bem no centro do poder de Stalin.

"O plano de Guderian era muito ousado - e significava grandes riscos relativos aos itens: reforços e suprimentos. Mas poderia ter sido o menor dos riscos. Parar os blindados cada vez que desbordavam forças inimigas para executar um movimento envolvente em torno delas, representava muito tempo perdido. "Depois que atingimos Smolensk houve uma parada de diversas semanas no Desna. A causa foi, em parte, a necessidade de receber suprimentos e reforços, mas foi principalmente um novo conflito de opiniões dentro do comando alemão - a respeito do futuro da campanha.

Houve discussões intermináveis: Bock queria seguir para Moscou. Endossando os pontos de vista de Guderian e Hoth, confiava que outra penetração profunda executada pelas vanguardas blindadas conseguiria chegar em Moscou. Mas Hitler julgou que chegara a hora de levar a efeito sua concepção original, classificando Leningrado e a Ucrânia como objetivos principais. Embora lhes atribuindo importância maior que a de Moscou, não pensava apenas nos efeitos econômicos e políticos como a maioria dos generais que o criticavam tendia a pensar.

Ele parece ter visualizado uma operação de dimensões supergigantescas, do tipo da batalha de Canas, em que a ameaça já criada a Moscou atrairia as reservas russas para aquele setor da frente, tornando assim mais fácil a conquista dos objetivos de flanco, Leningrado e Ucrânia. E dessas posições de flanco suas forças convergiriam sobre Moscou, que cairia como uma ameixa madura em suas mãos. Era uma concepção sutil e grandiosa. Frustrou-se por causa do fator tempo - porque a resistência russa foi mais obstinada e o tempo pior do que se esperara, enquanto que Hitler não estava preparado para adiar um ano a sua realização. E é evidente, também, que as perspectivas não melhoraram com as diferenças de opinião tão comum entre os generais.

A 19 de julho Hitler expediu uma diretriz para a fase seguinte - a ter início assim que terminassem as operações de limpeza do terreno entre o Dnieper e o Desna. Parte das forças motorizadas de Bock seria desviada para o sul a fim de auxiliar Rundstedt a destruir os exércitos russos que se defrontavam com ele, enquanto a outra parte seguiria para o norte, com a finalidade de reforçar o ataque de Leeb a Leningrado, cortando as ligações entre aquela cidade e Moscou. Bock seria deixado apenas com a infantaria a pé para continuar a progressão frontal sobre Moscou da melhor forma que pudesse.

Uma vez mais Brauchitsch contemporizou, em vez de pressionar imediatamente por um outro plano. Alegou que antes que qualquer outra operação começasse, as forças Panzer teriam que parar para manutenção dos motores e receber recompletamentos. Hitler concordou quanto à necessidade de uma parada dessas. Mas a resistência russa e os contra-ataques retardaram a limpeza da área a oeste do Desna, e não foi senão no início de agosto que as forças Panzer puderam ter um descanso. Em uma reunião no dia 4, Bock defendeu a idéia de progredir logo sobre Moscou, e Guderian afirmou que estaria pronto a iniciar o deslocamento no dia 15. Hitler enfatizou, contudo, que Leningrado ainda era seu objetivo principal e que depois de conquistá-la decidiria entre Moscou e a Ucrânia - ele estava inclinado a decidir-se pela última, pois abriria caminho para a conquista da Criméia e das bases aéreas lá existentes, que ele considerava uma potencial fonte de perigo para os campos petrolíferos romenos.

Perante Moscou
Um amargurado relato de Guderian sobre suas relações com Hitler e o OKH durante a Barbarrossa, diante a capital soviética.

À 14 de junho, Hitler reuniu os seus oficiais em Berlim, a fim de lhes explicar os motivos que o levaram a atacar a Rússia. Dada a impossibilidade de derrotar a Inglaterra, tinha de triunfar no continente. Entretanto, as posições alemãs na Europa não serão inexpugnáveis enquanto a Rússia não for esmagada... Estas justificações de guerra preventiva contra a Rússia não eram convincentes. Enquanto a luta prosseguia no Oeste, toda e qualquer nova empresa militar conduziria a guerra em duas frentes. Em 1914 esta mesma situação havia conduzido a derrota e a Alemanha de Adolf Hitler não parecia mais bem armada do que a do Kaiser. Por isso a assembléia acolheu sem comentários o discurso de Hitler, no meio de uma atmosfera muito tensa. Nenhum intercâmbio de opiniões se produziu e nos separamos em silêncio.

Antes de descrevermos os acontecimentos, lancemos uma olhada sobre a situação de conjunto do Exército alemão no começo desta decisiva campanha da Rússia.

Segundo as informações de que disponho, as 205 divisões alemãs distribuíam-se a 28 de junho de 1941 da seguinte maneira: no Oeste tinham ficado 38 divisões, 12 achavam-se na Noruega, 12 na Dinamarca, 7 nos Balcãs, 2 na Líbia; assim, pois, 145 divisões estavam disponíveis para a campanha do Leste. Tal divisão das forças demonstrava um lamentável desperdício do seu poder. A cifra de 38 divisões para o Oeste mais 12 para a Noruega parecia exagerada. Além disto, a campanha dos Balcãs foi a causa da demora do ataque à Rússia.

Mas subestimar o adversário russo teve outro efeito ainda mais grave: as informações do exército, principalmente as do General Koestring, nosso excelente adido militar em Moscou, sobre a potência militar do gigantesco império soviético, encontravam tão pouco crédito em Hitler como as da produção industrial e da solidez interna do regime. Em contrapartida, Hitler tinha sabido transmitir o seu otimismo irrefletido à sua esfera de relações militares e o OKW e o OKH, convencidos de que a campanha iria terminar antes do começo do inverno, não tinham previsto equipamento apropriado para o exército, senão na proporção de um homem em cada cinco.

Até 30 de agosto de 1941, o OKH não se ocupou seriamente de dotar com este equipamento as unidades mais importantes. Não posso de forma alguma admitir uma afirmação que se ouve agora de vez em quando: Hitler foi o único culpado de que faltassem roupas de inverno às forças terrestres em 1941. A Luftwaffe e as Waffen SS estavam, com efeito, amplamente providas e tinham recebido este equipamento na época devida. Mas o Estado-Maior sonhava vencer militarmente a Rússia em sete ou dez semanas e provocar depois a sua derrocada política. Tão firmemente confiava neste projeto quimérico que, ainda em 1941, se operou a reconversão da indústria que trabalhava para o exército e para outros setores da economia. Inclusive pensou-se fazer voltar à Alemanha, no princípio do inverno, 60 a 80 divisões do Leste, na certeza de que o resto das forças bastaria para conter a Rússia durante a estação fria. Quanto às tropas que ficassem na Rússia, assim que terminassem as operações do outono, pretendia-se que invernassem em bons quartéis, numa linha de apoio. Tudo, até então, parecia muito simples e correndo às mil maravilhas. Repudiaram-se as objeções, com otimismo. A narração dos acontecimentos demonstra quão longe da dura realidade estavam estes projetos.

Mencionamos ainda outro assunto que, mais adiante, foi muito prejudicial para o prestígio alemão. Pouco antes do início das hostilidades, uma ordem do OKW, sobre o tratamento que devia ser dado às populações civis e aos prisioneiros na Rússia, foi transmitido diretamente aos corpos de exército. Já não era obrigatório aplicar o código de justiça militar para sancionar as sevícias cometidas contra a população civil e os prisioneiros de guerra, mas sim que cada caso devia ser submetido à apreciação dos superiores. Esta ordem podia prejudicar gravemente a disciplina. Proibi divulgá-la entre as minhas divisões e ordenei a sua devolução a Berlim.

Outra ordem, igualmente injusta, dispunha a execução imediata dos comissários políticos, isto é, dos membros do Partido Comunista destacados junto dos chefes militares capturados. Se bem que, segundo parece, foi recebida no Grupo de Exércitos do Centro, jamais chegou ao conhecimento das minhas unidades. Retrospectivamente, não podemos senão lamentar que estas ordens não tivessem sido anuladas pelo OKW e o OKH, evitando o desprestígio do bom nome alemão e os amargos sofrimentos de soldados irrepreensíveis. Pouco importa que os russos tivessem ou não aderido aos convênios de Haia, que tivessem reconhecido ou não a Convenção de Genebra; os soldados alemães deviam ajustar a sua atitude a estas prescrições internacionais e aos imperativos da fé cristã. Mesmo sem estas ordens excessivas, já a guerra ia pesar duramente sobre a população civil russa, a qual tinha tão pouca responsabilidade como a nossa no desencadear das hostilidades.

Assim, pois, a 22 de junho, as tropas alemãs cruzaram a fronteira. Em algumas semanas realizaram um enorme avanço. No centro, Smolensk foi tomada no correr do mês de julho. Moscou estava só a 300 quilômetros. Ao norte, os exércitos marchavam firmemente em direção a Leningrado, enquanto que, ao sul, ameaçavam Kiev. A 23 de agosto fui chamado a uma conferência do grupo de exércitos. O chefe do Alto Estado-Maior do exército, General Halder, assistiu à reunião. Comunicou-me que, daí para o futuro, Hitler estava disposto a renunciar às operações previstas, tanto sobre Leningrado como sobre Moscou. Queria apoderar-se antes de mais nada da Ucrânia e da Criméia. Discutiu-se largamente sobre a maneira de modificar a "inquebrantável decisão de Hitler''. Considerávamos unanimemente que a solução, adotada já irrevogavelmente, de dirigir o nosso esforço sobre Kiev nos levaria inevitavelmente a uma campanha de inverno e provocaria as complicações que o OKH queria evitar a todo o custo.

Depois de longas e estéreis discussões, o General Von Bock propôs que eu acompanhasse o General Halder ao Quartel-General do Führer para lhe expor a nossa posição. Como vinha diretamente da frente, pensei que os meus argumentos teriam mais peso e poderia conseguir que nos permitisse fazer um último ataque contra Moscou. Aceitou-se o projeto; partimos no meio da tarde e à hora do crepúsculo aterrissamos no aeródromo do Loetzen, na Prússia Oriental.

Fui ver Hitler. Ante um vasto auditório em que tomavam parte Keitel, Jodl, Schmundt e outros generais do Oberkommando e Wermacht (mas, infelizmente, nenhum representante das forças terrestres), fiz uma exposição da situação do meu Panzergruppe, do seu estado e da configuração do terreno. Quando terminei, Hitler perguntou-me:
- Depois do que acaba de dizer, considera as suas unidades capazes de realizar um grande esforço?
- Sim, desde que se fixe às tropas um objetivo cuja importância possa ser compreendida por qualquer soldado - respondi.
- Evidentemente, está pensando em Moscou - replicou Hitler.
- Sim - disse - e, já que abordou o tema, permita-me que lhe explique as minhas razões.

Hitler consentiu. Expus pormenorizadamente os motivos em prol do prosseguimento das operações sobre Moscou e contra a marcha sobre Kiev. Expliquei que, do ponto de vista militar, o mais importante era distrair as forças combatentes do inimigo, já muito debilitadas nos últimos encontros. Descrevi a importância geográfica da capital da Rússia. Ao contrário de Paris, na França, Moscou não era somente o centro da rede de transportes e transmissões e o coração político do país, mas também uma importante zona industrial; a sua queda causaria grande impressão, tanto no povo russo como no mundo. Falei do moral das tropas, que só esperavam a ordem de marchar sobre Moscou e tinham-se preparado entusiasticamente para isso.

Tentei demonstrar que, uma vez iniciado o ataque na direção decisiva, os territórios da Ucrânia, tão importantes do ponto de vista econômico, cairiam em nosso poder como fruta madura, pois os deslocamentos, de norte a sul, dos russos iriam complicar-se notavelmente por causa da desorganização que a tomada de Moscou causaria nas suas comunicações. Descrevi o estado das estradas no setor da ofensiva que me tinha sido designada e as dificuldades de abastecimento, que aumentariam de dia para dia, no caso de avançarmos sobre a Ucrânia. Mencionei, finalmente, os graves problemas que suscitaria uma demora nas operações. Se estas tinham de prosseguir durante o período de mau tempo, seria então demasiado tarde para levar a cabo os projetos do Estado-Maior e assestar o golpe decisivo sobre Moscou antes de terminar 1941.

Hitler deixou-me falar sem uma só interrupção; depois tomou a palavra e explicou com todo o pormenor por que tinha preferido adotar outra decisão. As matérias-primas e a base de abastecimentos da Ucrânia, explicou em particular, eram de vital importância para a continuação da guerra. A partir daí, continuou a sublinhar a importância da Criméia, "porta-aviões natural que podia servir à União Soviética para lançar-se sobre o petróleo romeno". Era preciso eliminá-la do jogo. Pela primeira vez ouvi a frase "os meus generais não entendem nada da economia da guerra''. Pela primeira vez fui testemunha de uma cena que iria repetir-se freqüentemente: todos os presentes aprovavam cada frase de Hitler e eu encontrei-me só frente a ele. Ante o bloco compacto da OKW, neutralizando-me, renunciei a lutar naquele dia, pois nessa época ainda acreditava que ninguém se podia permitir fazer uma cena violenta ao chefe supremo do Reich em presença dos seus ajudantes.


Passava da meia-noite quando regressei aos meus alojamentos. A 24 pela manhã, fui ver o chefe do Alto Estado-Maior do exército e informei-o do fracasso da última tentativa para mudar a opinião de Hitler. De acordo com as ordens do Führer, a Batalha de Kiev desencadeou-se a 25 de agosto. Os combates terminaram vitoriosamente a 16 de setembro. Os russos capitularam. O número de prisioneiros elevou-se a 665.000 homens. O comandante-chefe da frente sudoeste e o seu chefe de Estado-Maior pereceram nos últimos encontros, tentando perfurar as nossas linhas. O general que comandava o V Exército foi feito prisioneiro. Tive com ele uma conversa interessante:
- Quando é que soube que os meus blindados se moviam na sua retaguarda?
- Por volta de 8 de setembro.
- Por que é que não evacuou Kiev naquele momento?
- Tínhamos recebido a ordem de evacuar e de nos retirarmos para leste e já nos dispúnhamos a cumpri-la quando uma contra-ordem nos obrigou a fazer frente novamente ao inimigo e a defender Kiev a todo custo.

A execução da contra-ordem teve como conseqüência o aniquilamento daquele grupo de exércitos. Ficamos surpresos com semelhante intervenção. O inimigo não voltou a repeti-la; mas nós padecemos, desgraçadamente, as piores intervenções do mesmo gênero. Sem dúvida que esta vitória representava um grande êxito tático, mas era duvidoso que produzisse conseqüências estratégicas de importância. Isso dependia de uma coisa: conseguiriam os alemães obter resultados decisivos antes do inverno e, inclusive, antes que, já iniciado o outono, a terra se convertesse num lamaçal? De imediato tinha sido preciso renunciar ao ataque projetado para apertar o cerco de Leningrado. Entretanto, o Oberkommando das forças terrestres achava que o adversário já não estava em condições de opor aos exércitos do Sul uma frente coerente e capaz de oferecer uma séria resistência. Com aquele grupo de exércitos poderia, pois, conquistar a Bacia do Donetz e chegar ao Don antes do inverno.Mas Moscou constituía o ponto onde era preciso assestar o golpe principal com o reforço de exércitos do Centro. Teríamos tempo para isso?

A ofensiva sobre Orel-Briansk representava a fase preliminar do ataque a Moscou. Uma vez mais concluiu vitoriosamente a batalha; teríamos forças para prosseguir o ataque e explorar o triunfo? Esta era a interrogação mais grave até agora para o comandante supremo.

Enquanto as operações de inverno prosseguiam deste modo, nos preocupávamos em alimentar a Alemanha, os nossos exércitos e a população civil russa. Depois das abundantes colheitas do outono de 1941, existiam em todo o país grandes quantidades de cereais panificáveis. Também não havia escassez de gado para o matadouro. As necessidades da tropa foram cobertas e, como o lamentável estado das linhas férreas até a primavera de 1942 impedia o II Exército Blindado de enviar estes produtos à Alemanha, foram entregues à população, especialmente à de Orel. Algumas fábricas desta cidade, cuja maquinaria não pôde ser retirada pelos russos, entraram de novo em serviço para cobrir as necessidades do exército e dar trabalho à população civil. Isto aconteceu com uma fábrica de Folha-de-flandres e com oficinas que trabalhavam couro e feltro para o fabrico de calçado.

Quanto ao estado de ânimo da população russa, reflete-se numa conversa que tive em Orel, durante esse período, com um velho general do Czar: "Se tivessem vindo há vinte anos, nós os teríamos acolhido com entusiasmo'', disse-me".Mas agora é demasiado tarde. Chegam quando começamos a viver e nos fazem retroceder de novo vinte anos; temos de refazer tudo desde o princípio. Agora combatemos pela Rússia e estamos todos unidos na luta.'' Além disto, quando os comissários do Reich, todos eles funcionários nazistas, substituíram a administração militar, arranjaram as coisas de modo a anular em pouco tempo toda a possível simpatia pelos alemães e preparar assim a praga dos guerrilheiros.

Fonte deste artigo: Grandes Crônicas da Segunda Guerra - General Heinz Guderian - Seleções

 
Divisões Panzer - os punhos de aço
Autor: K.J. Mcksey
  Confiantes por já terem batido e exército alemão em 1918, os exércitos da Europa Ocidental voltaram à luta, contra seu antigo inimigo, em maio de 1940 - e em poucos dias estavam prostados diante de uma arma numericamente inferior, mas tecnicamente revolucionária as Divisões "Panzers"
Valor: R$ 25,00 + postagem
 
 
 
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