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10 de Junho de 1940
Benito Mussolini declara guerra à França
e Grã-Bretanha.
"Combatentes da terra e do mar e do ar!
Povo italiano, às armas!
Mostrem ao mundo a vossa vontade...
a vossa coragem...
o vosso valor!"
Tal como um antigo cônsul romano, Mussolini ansiava
por um império africano. Já tinha massacrado
os abissínios e subjugado os líbios. Agora
queria mais.
- Em 1940 não estávamos preparados para
entrar em guerra. Foi uma movimentação
política por parte de Mussolini que achou que
Hitler estava a ganhar muito depressa de mais e que,
se ele não tomasse qualquer tipo de iniciativa,
não poderia sentar-se à mesa das negociações.
(Paolo Colacicchi - Integrande do Exército
Italiano)
Mussolini virou-se para o Egito, o Egito do Nilo e
do Canal do Suez. No Outono de 1940, enviou 250 mil
soldados para a vizinha Líbia e mais 300 mil
para a Etiópia. No Egito, enfrentavam apenas
os 30 mil soldados britânicos da Força
do Deserto Ocidental.
13 de Setembro de 1940:
Quando a Batalha de Inglaterra estava ao rubro, os homens
de Mussolini partiram à conquista do Egito. Em
inferioridade numérica, as tropas britânicas
recuaram. Após 4 dias, as tropas de Mussolini
chegaram a Sidi Barrani, 100 km no interior do Egito.
Iriam parar aí, a 500 km de distância do
Cairo.
- Recuando no tempo, é extraordinário
como entramos no Egito. Eram colunas gigantescas, não
muito bem protegidas, porque não tínhamos
tanques. E cada uma delas fixava-se numa espécie
de campo fortificado. Isso ajudou, obviamente, o General
O'Connor. (Paolo Colacicchi - Integrande
do Exército Italiano)
O General O'Connor, o comandante britânico, usara
essa paragem para planear um contra-ataque.
- Os italianos tinham vários campos fortificados
e, como estavam afastados uns dos outros, achamos que
não conseguiriam defender-se. Então, as
nossas tropas atacaram-nos pela retaguarda, por onde
chegavam às provisões. (Gen.
Sir Richard O'Connor - Commander Western Desert Force)
- A operação de O'Connor devia durar
quatro dias, porque era o limite dos tanques disponíveis,
que estavam nas últimas, e também para
a logística, em termos de água, combustível
e munições. Usamos o fator surpresa e
atacamos italianos por Sidi Barrani e, de manhã,
a resistência italiana tinha desaparecido. O grande
feito de O'Connor foi usar veículos capturados
e água e combustível também capturados.
Assim conseguiu prolonga resta batalha de quatro dias,
transformando-a numa ofensiva de algumas semanas. Conseguiu
chegar até Bengasie até El Agheila. (Gen.
David Belchem - Western Desert Force)
O'Connor tinha capturado uma área do tamanho
da França e Grã-Bretanha. Para os britânicos
era uma vitória e oportunidade incríveis,
pois na Grã-Bretanha os raides aéreos
aumentavam de ferocidade. Para Mussolini, apenas seis
meses depois de entrar na guerra, a derrota era um revés
nas suas pretensões imperiais. Mussolini dissera:
"Quero mil italianos mortos para me sentar à
mesa das negociações." E, é
óbvio, custou mais do que isso. 200 mil italianos
foram feitos prisioneiros.
- Eles estavam fartos, ficavam contentes por se renderem.
Sabíamos que estavamos em menor número,
e quando viamos estvamos a levar milhares de prisioneiros
de guerra, era uma alegria. Chamavamos-lhes ''cavalheiros'''(referindo-se
ao italianos que eram prisioneiros). ''Ali vão
os cavalheiros." (Gen. Sir Francis
de Guingand - Military Intelligence - Cairo)
Trípoli, a capital da Líbia, estava ao
alcance de O'Connor. Mas Churchill mandou as melhores
forças de O' Connor, defender a Grécia
da ameaça Alemã.
- Era óbvio que não conseguíamos
defender a Grécia e Trípoli juntas. Podíamos
ter tomado Trípoli e depois chegavamos à
Grécia. (Gen. Sir Richard O'Connor
- Commander Western Desert Force)
- Perdemos uma enorme oportunidade de terminar a guerra
na África. Foi um erro fatal mandar as tropas
para a Grécia.(Gen. Sir Francis
de Guingand - Military Intelligence - Cairo)
- Se tivessemos avançado logo, podíamos
tê-los expulsado (Os italiamos). Culpo-me por
não o ter feito. Não tem qualquer desculpa.
(Gen. Sir Richard O'Connor - Commander
Western Desert Force)
12 de Fevereiro de 1941:
Hitler vem em salvação de Mussolini. Uma
pequena força móvel parte para Trípoli.
Uma força que em breve seria conhecida como ''Afrika
Korps''.
- O objetivo do Afrika Korps era apanhar o maior número
possível de tropas britânicas e cobrir
o flanco sul da Europa. Nunca quisemos conquistar o
Egito ou atravessar o Canal do Suez.(Gen.
Siegfried Westphal - Afrika Korps)
O homem que Hitler escolheu para salvar Mussolini
do desastre tinha feito nome em França no ano
anterior: Erwin Rommel.
- No porto de Trípoli, em Fevereiro ou Março
de 1941, Rommel disse ao meu amigo, o tenente Hunt,
que era engenheiro: ''Hunt! Pode construir-me 150 tanques.''
O homem ficou boquiaberto e Rommel continuou: ''Não
tem madeira suficiente e telas das velas, para fazer
150 capas para Volkswagen? Então pode entregar-me
150 tanques". Esses tanques enganaram os britânicos.
Rommel não sabia nada sobre a guerra no deserto,
mas era corajoso e ousado.
- Rommel era o comandante ideal para este teatro de
guerra. Era uma vasta área, mas limitada em número
de soldados, e ele quase podia aplicar tacticas navais.
- Havia poucas cidades e, portanto, não tínhamos
dificuldades com os árabes. Não nos perturbavam.
(Gen. Siegfried Westphal - Afrika Korps)
Na noite em que o Afrika Korps chegou, foi enviado
para a frente de batalha. Rommel acreditava num ataque
inesperado. No último dia de Março, ainda
nem todas as tropas tinham chegado. Enfrentou os britânicos
em El Agheila e em apenas 12 dias empurrou-os 800 km
de volta para o Egito.
- Era como se o Bicho-papão estivesse a virar
da esquina. Só se ouvia ''o Rommel vem aí''
ou ''o Rommel chegou, fujam''. Era a vez de os britânicos
serem feitos prisioneiros.
- Rommel disse-me para seguir em frente e chegamos a
Derna, capturando pelo caminho soldados britânicos
e generais, que iam chegando um a um. Entre eles estava
o famoso General O'Connor.
- Estavamos a quilometros da nossa frente. Chegamos
a uma parte onde os alemães tinham um grupo de
reconhecimento. Foi um choque, nunca pensei que podia
acontecer-me. Talvez eu fosse muito convencido.(Gen.
Sir Richard O'Connor - Commander Western Desert Force)
Foi assim que a lenda de Rommel cresceu. Em meados
de Abril, já tinha empurrado os britânicos
para o ponto de partida. Mas permanecia uma contrariedade...
Tobruk. 160 km atrás da linha da frente, a guarnição
australiana resistia, negando a Rommel um importante
porto de abastecimento. Tobruk nas mãos dos britânicos
seria uma ameaça às rotas de abastecimento
de Rommel e impedia-o de avançar mais pelo Egito.
Sem conseguir tomar de assalto Tobruk, Rommel cercou
a cidade. A Luftwaffe também foi convocada. Foram
realizados mais de mil raides sobre Tobruk. Debaixo
do nariz de Rommel, a Marinha Britânica substituiu
a guarnição de Tobruk por novas tropas,
polacos, sul-africanos, indianos, britânicos.
- As rações eram escassas em Tobruk,
mas temos de agradecer à Marinha, fizeram um
excelente trabalho. (soldado inglês
da guarnição de Tobruk).
Em 1941, a Marinha Britânica dominava o Mediterrâneo,
desde que derrotará em Taranto a frota italiana
no ano anterior. Os britânicos podiam atravessar
o Mediterrâneo sem problemas. Mais importante
ainda, a operar a partir de Malta, a Marinha Britânica
podia atacar os navios alemães que passavam da
Itália para Trípoli. Os abastecimentos
britânicos chegavam, mas os de Rommel não.
Sem o combustível necessário para os panzers,
Rommel não pôde avançar mais pelo
Egito nesse Verão. E pior, por muito que tentasse,
não conseguia capturar Tobruk. A cidade continuou
a ser um espinho encravado, símbolo da persistência
dos britânicos, tal como a expressão facial
de "bulldog" de Churchill.
- Éramos massacrados pelos alto-falantes. Chamavamo-nos
de prisioneiros voluntários de Tobruk. A máquina
de propaganda de Rommel gritava-nos que desistíssemos,
mas não davamos ouvidos. Dizíamos: ''Que
se dane ''. Sabíamos que não conseguiriam
entrar.
- Não havia luz ao fundo do
túnel desde a retirada de Dunquerque. Por razões
políticas e pelo moral das gentes deste país(Inglaterra),
era muito importante mostrar que conseguíamos
deter os alemães. (Field Marshal
Lord Harding)
A Guerra do deserto estava, no momento, paralisada.
Era o tempo de reverem tácticas e avaliar os
abastecimentos. As tácticas de Rommel eram mais
eficazes do que as britânicas, principalmente,
em relação ao uso dos tanques.
-Tínhamos treinado para disparar em movimento,
para sermos uma cavalaria sobre lagartas e orientar
assim as tropas. Os alemães estudaram o problema
mais do que nós entre as duas guerras e, claro,
Rommel tinha a experiência do norte da França,
bem como muitas das guarnições dos seus
tanques. Sabiam que a melhor táctica dos tanques
contra o inimigo era ficarem escondidos à espera
que o inimigo aparecesse. Se fossem apanhados em campo
aberto, deveriam atrair o inimigo para os seus próprios
canhões anti-tanque.(Gen. David
Belchem - Western Desert Force)
A principal arma anti-tanque de Rommel
era a Krupp de 88 mm. Dizimara os tanques franceses
em Maio de 1940 e agora estava a fazer o mesmo aos tanques
britânicos.
- Era eficaz a 900 metros ou mais. Conseguiam localizar
o tanque e destruí-lo facilmente. (soldado
do Afrika Korps)
- Conseguiam atingir-nos antes de nos aproximarmos.
Não conseguíamos atacá-los com
os morteiros. (soldado Inglês)
Rommel não tinha apenas vantagem em táctica
e equipamento, gozava ainda da confiança do seu
chefe político, Hitler. Wavell, o seu adversário
direto, era continuamente pressionado por Churchill
para chegar à vitória. Quando falhou,
foi substituído pelo General Sir Claude Auchinleck.
O ''Auk'', por sua vez, nomeou seu comandante-de-campo,
o Tenente-General Cunningham.
Cunningham derrotara os italianos na África Oriental
e recoloca-rá Hailé Selassiéno
no trono da Abissínia. Mas, era um homem da infantaria
e não sabia nada sobre tanques. O tanque era
a chave do êxito no deserto, mas os tanques britânicos
deixavam muito a desejar.
- Eram muito fracos a nível mecânico. Faltavam
peças, outras não funcionavam bem. (soldado
Inglês)
Ao invés dos alemães, os britânicos
tinham poucos transportes de tanques. Tinham de percorrer
longas distâncias e lutar sobre as mesmas lagartas.
- Cada lagarta está ligada à seguinte
por um pino, partes amovíveis, e no deserto,
muitas vezes, só havia terra arenosa e dura.
A água era um lubrificante. Os tanques adequam-se
mais a terrenos lamacentos.
Para Churchill, a Guerra do Deserto estava há
muito tempo paralisada. Precisava de uma vitória,
sobretudo depois das humilhantes derrotas na Grécia
e em Creta. Assim que Cunningham e Auchinleck foram
nomeados, começaram imediatamente a ser pressionados
para atacar. Os britânicos tinham mais armas,
mas a táctica era igual. Rommel podia repetir
as palavras de Wellington: ''Chegaram da mesma maneira
e impedimo-los da mesma maneira. ''
Em apenas cinco dias, Cunningham perdeu 300 tanques,
dois terços da sua força, muitos devido
a problemas mecânicos.
- As lagartas encravavam. Em ação não
podíamos fazer nada, exceto abandonar o tanque.
E depois era impossível recuperá-lo. Naquele
tempo, no deserto, não tínhamos meios
para consertá-los. (ofical Inglês)
- Abandonávamos sempre o campo de batalha e parecia
que os alemães continuavam lá.
Até podíamos ter sido bem sucedidos nesse
dia, mas os alemães negavam-nos sempreo campo
de batalha. (ofical Inglês)
- O equipamento deles era igual, mas o deles estava
mais cuidado. Eles faziam todos os esforços para
recuperar os tanques deles quando mal caía à
noite. (ofical Inglês)
Com astúcia, Rommel convenceu Cunningham que
perdera a batalha. Mas Auchinleck estava determinado
a manter a posição. Afastou Cunningham,
que queria retirar, e nomeou Ritchie.
Ganhou a aposta de ficar e lutar. Quando a derrota parecia
inevitável para os britânicos, o equilíbrio
da batalha pendeu dramaticamente para o seu lado quando
os panzers de Rommel ficaram sem combustível.
Tobruk foi rendida, Rommel foi obrigado a recuar 800
km para o ponto de partida. E no dia de Natal de 1941,
Bengasi mudou de mãos pela terceira vez. As forças
da Commonwealth tentavam cortar o acesso dos alemães
a África quando foram obrigadas a retirar, desta
vez para o Extremo Oriente, pois a entrada do Japão
na guerra ameaçava as bases britânicas
da Birmânia e da Malásia.
- Perdemos uma oportunidade de ganhar algo que era
real e importante no teatro de guerra do Médio
Oriente, para ir conquistar algo que era bastante duvidoso
e improvável no Extremo Oriente. (ofical
Inglês)
Em poucas semanas, Rommel contra-atacou. Contra as enfraquecidas
tropas britânicas, recapturou Bengasie ameaçou
novamente Tobruk. Mas foi travado em Gazala. De novo
se instalou o impasse.
As peculiares condições do deserto criaram
uma camaradagem única. Para muitos, a Guerra
do Deserto era uma guerra privada, a última a
reter as pretensões de cavalheirismo.
- Assim que parávamos, havia um descanso. Preparavamos
o terreno e íamos jogar futebol.
O desportivismo era de ambos os lados. Os jogos de futebol
não eram interrompidos pela artilharia.
- A dieta era composta por biscoitos e carne enlatada.
Comíamos carne enlatada frita, cozida, com biscoitos
para cão. Pois... os biscoitos para cão.
Nem os cães os comiam, recusavam-se.
Com o problema da comida e da água potável,
a disenteria era um perigo constante. Os alemães
inventaram um cantil, que os invejosos britânicos,
depois de verem os seus destruídos inúmeras
vezes no solo duro, copiaram e batizaram de ''jerry
can''.
- Tínhamos direito a uma chavena por dia para
nos lavarmos, fazermos a barba e tudo.
Muitas vezes, juntávamos a água num capacete
e cada um fazia a barba assim.
- Acima de tudo, estava sempre muito, muito calor. O
calor era tanto que podíamos, literalmente, fritar
ovos nos para-lamas dos tanques. Estava tanto calor
que até se ouvia o ovo a fritar.
As moscas eram talvez a pior praga do deserto. Não
eram apenas um aborrecimento, eram também portadoras
de doenças. Para as moscas era indiferente o
lado que afetavam, claro.
- Houve oportunidaes em que havia competições
para matar moscas. As moscas estavam infectadas e quando
as matávamos ficavamos com um cheiro nas mãos
que provocava enjoos. Recebemos ordens do QG para não
matarmos as moscas. Tínhamos de deixá-las
em paz. (oficial alemão)
- Uma mosca deve pôr, por ano, uns nove milhões
de ovos. Havia também os ocasionais escorpiões
e víboras. E quando o vento soprava, a areia
e o pó metiam-se em todo o lado. A poeira entupia
tudo, os carburadores ficavam entupidos, os relógios
paravam. (oficial alemão)
- Sofríamos problemas intestinais, uma espécie
de diarreia grave, por causa da areia. Quando íamos
das tendas até à latrina, tínhamos
de ir, literalmente, com uma bússola. Havia casos
de soldados que não regressavam porque se esqueciam
da bússola. (oficial alemão)
- Durante as tempestades de areia a batalha parava.
Era bom ao início. Mas depois de três dias
de tempestade queríamos era lutar.
Ritchie planejou uma ofensiva no final de Maio com os
novos tanques Grant, vindos da América, mas Rommel,
como sempre, chegou primeiro. Ritchie tinha aprendido
pouco com os erros passados. Como os italianos, planejará
vários campos fortificados e colocou minas em
grande quantidade. Mas tal como O'Connor fizera com
os italianos, Rommel limitou-se a rodear o flanco aberto.
- Estavamos a sul, em frente a Bir Hakeim, e durante
a manhã vimos aparecer poeira onde estavam os
alemães. Vinham de onde estava a 7ª Divisão
Blindada. Era como uma raposa no galinheiro. Corriam
todos por todo o lado. (ofical inglês)
Os novos tanques de Ritchie provaram ser uma desilusão.
Mais uma vez, os blindados britânicos foram vencidos,
Rommel vencia a Batalha de Gazala. Estava à mão
o prêmio que Rommel ainda não tinha conseguido,
o prêmio que Churchill, por um lado, lhe tinha
negado até agora... Tobruk.
As fortificações de Tobruk tinham sido
negligenciadas. Já não eram tão
formidáveis como no ano anterior. A emissão
de rádio de Berlim anunciou a rendição
de Tobruk. Para Churchill foi um momento especialmente
triste. Para Rommel era o auge da sua carreira, e o
grato Führer promoveu-o a Marechal-de-Campo. Os
britânicos recuavam no Egito, mais do que antes.
- Nunca tinha visto aquele caos. A vitória parecia
impossível. Nunca tinha visto a estrada tão
apinhada de veículos. As unidades partiam à
pressa, ninguém sabia o que se passava. Felizmente,
a nossa Força Aérea (RAF) era mais forte
do que a do inimigo, caso contrário teríamos
sido dizimados. (ofical inglês)
- Havia que esconder o desespero, de uma maneira tipicamente
britânica, com desprendimento. Rommel era esperado
no Cairo nessa noite, e o nosso Embaixador, Lord Killearn,
deu um jantar para 80 pessoas no Clube Mohammed Ali.
E disse-nos: ''Quando ele chegar saberá onde
nos encontrar.''(Lawrece Durrel - British
Press Officer - Cairo)
Passando Mersa Matruh, Maaten Bagush, Fuka e Daba,
os britânicos foram recuando, até que a
30 de Junho de 1942, chegaram a um apeadeiro, àpenas
100 km de Alexandria... El Alamein.
Não foi por acaso que Auchinleck escolheu El
Alamein para a batalha decisiva em território
egípcio.
Este pedaço de deserto era diferente daquele
onde a guerra fora travada. Como sempre, o mar estava
a norte, mas aqui, a apenas 60 km para o interior, havia
outro mar... O mar de areias movediças e pantanos
salgados... Impenetrável para os tanques... a
Depressão de Qattarra.
Até agora, a estratégia fluida de guerra
no deserto iniciara-se sempre num flanco aberto, mas,
em El Alamein, Rommel teria de pensar numa táctica
diferente. Auchinleck preparou-separa a derradeira batalha
no Egito, pois, após a queda de Tobruk, afastara
Ritchie e tomara o comando do 8º Exército.
Mas Churchill também já planejava afastá-lo
a ele. Rommel não esperou pela decisão
de Churchill.
Lançou as tropas esgotadas em mais um esforço
desesperado para conquistar o Egito. Em Julho, na batalha
mais decisiva da Guerra do Deserto Auchinleck impediu
o seu objetivo.
- Era uma batalha muito importante e era sabido que
podíamos ter perdido a base no Médio Oriente.
(ofical comandante inglês)
Churchill deslocou-se em agosto para verificar o moral
das tropas. A queda de Tobruk exasperara-o,
mas ficou comovido com a recepção do 8º
Exército. Já tinha decidido nomear Alexander
para o lugar de Auchinleck. O comandante do 8º
Exército deveria ser Montgomery, embora Montgomery
nunca tivesseestado no deserto durante a guerra.
- Quando Montgomery chegou,estávamos um pouco
apreensivos, porque nunca tínhamos visto alguém
como ele.
- O primeiro-ministro parecia algo deslocado. Ele trazia
um fato elegante, estava a fumar um charuto,
mas tinha o monograma ''WC'' nas pantufas. Trazia uns
sapatos que se usavam em casa com casaco,
com o ''W'' num sapato e o ''C'' no outro sapato. E
fez-nos um discurso animador.
Para Rommel,as leis da guerra no deserto começavam
a funcionarcontra ele. Quanto mais avançava,
mais se estendia a linha de abastecimento.
- Tínhamos atravessado o Rubicão, tal
como César, quando entramos no Egito. Os olhos
de Hitler estavam fixados na frente russa, a frente
decisiva, e o nosso papel não era muito relevante.
Ele já ficava satisfeitose não houvesse
problemas. Mas não podia garantir que os abastecimentos
iriam chegar aos portos do norte de África.(Gen.
Siegfried Westphal - Afrika Korps)
Apenas um em cada quatro dos naviosde abastecimento
de Rommel passava as linhas inimigas.
A sua solução, mais tarde, foi destruir
Malta. A Luftwaffe de Göering acreditava que podia
aniquilar a ilha. Stukas, Heinkels, Junkers, Dorniers,
Messerchmitts, todos os dias, às centenas,varriam
a ilha.
Malta tornou-se o local mais bombardeado do planeta.
Mas Malta resistiu.
Além disso, a Força Aérea britânica
podia agora operar a partir das bases ao longo do Nilo,
a apenas 160 km da frente.
- No deserto, a batalha caracteriza-se pela oposição
dos tanques, em grandes quantidades, da artilharia e
do apoio aéreo. O apoio aéreo, por exemplo,
não foi importante na Rússia, porque lá
as tropas tinham a protecção do terreno.
Na África, a superioridade no ar era decisiva.
Montgomery detinha a superioridade no ar. Sem combustível,
as tropas de Rommel tinham de passar pelo inimigo, e
estavam a 2300 km da sua base em Trípoli, enquanto
Montgomery estava a 100 km da sua base, em Alexandria.
A distância dos portosde Bengasi, Trípoli,
e talvez Tobruk,tornou-se demasiado grande.
Em Setembro, o moral do Afrika Korps sofreu quando Rommel
ficou doente. Hitler ordenou que regressasse. Mas os
seus homens foram deixados no deserto, pelo segundo
ano. Os homens do Afrika Korps, tão longe de
casa, não pensavam em partir. Restava-lhes apenas
a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, os britânicos
iam atacar.
- Os soldados tinham saudades de casa e, com certeza,
preferiam regressar. (oficial alemão)
Não deve ter sido por acaso que a Campanha do
Deserto produziu a canção mais memorávelda
2ª Guerra Mundial.
- Lili Marlene era um pouco do nosso país. (oficial
alemão)
Lili Marlene tornou-se igualmente popular entre os
britânicos.
- Estávamos sempre em contacto com o nosso país.
Ouvíamos as notícias,e as da oposição
também, claro. Testemunhamos o início
da música de Lili Marlene. (oficial inglês)
Para os britânicos o confortodo seu país
estava perto, no Cairo. A cidade estava cheia de bares,
bazares e outras distracções.
- Elas ficavam com o nosso dinheiro. Diria que 75%
dos homens, se conseguissem encontrar uma mulher, ficava
com ela. (oficial inglês)
- Era estranho pensar na Europa, em guerra e em desespero
e o Cairo parecia resplandecente.Íamos jantar
com amigos, tomávamos um banho quente e bebíamos
um uísque. Na segunda-feira, voltavamos para
a frente. (oficial inglês)
Montgomery encarava como o maior objectivo elevar o
moral das tropas. Foi o primeiro comandante britânico
a dar-se a conhecer. A imprensa, principalmente os fotógrafos,
mantida à distância por Wavelle Auchinleck,
era bem recebida por ele.
- Assim que foi possível, iniciou uma ronda
pelo 8º Exército e reuniu as pessoas para
falar com elas. Usava a imprensa, a rádio, e
artifícios, como os chapéus. Queriam algo
com o qual as pessoas se identificassem. Algo mais do
que o uniforme rígido. (oficial inglês)
- Foi notável. Em poucos dias, a atmosfera tinha
mudado totalmente. Havia uma sensação
de confiança. Ele garantiu-nos que os tempos
difíceis tinham terminado e que estava determinado
a vencer. (oficial inglês)
- Disse-nos: ''Agora, a única ordem é
que todos fiquem onde eles estão, que combatam
onde eles estão e que morram onde eles estão.''(Gen.
Sir Francis de Guingand - Military Intelligence - Cairo)
Montgomery equipou as suas tropas com as armas mais
recentes. Constantemente pressionado por Churchill a
iniciar a ofensiva, Monty, como ficaria conhecido, não
ia deixar-se apressar. Estava determinado, como dizia,
a que todos estivessem em forma para a batalha iminente.
Como as primeiras horas iriam ser dominadas pelas minas,
mais de meio milhão, colocadas pelos alemães,
a ofensiva teve o nome de código''Operação
Pé-Leve'', uma piada de mau gosto. Em El Alamein,
os ingleses tinham concebido um detector de minas eletrônico,
mas muitos chegavam com defeito
e a localização das minas teve de ser
feita manualmente. Os homens picavam o chão com
as baionetas e tiravam as minas à mão.
Os campos minados dos alemães chegavam a estender-se
por 8 km. Para os tomar de assalto, Montgomery reunira
250 mil soldados. Britânicos, australianos,neozelandeses,
indianos, sul-africanos, gregos, polacos,checos e franceses
livres.
O dobro dos homens de Rommel. Nada seria deixado ao
acaso.
- Estavamos bem treinados. Estavamos bastante confiantes.
Cada soldado sabia exactamenteo que fazer. Estava tudo
a nosso favor. Não tínhamos medo. É
um velho ditado, mas pensavamos que o mal só
calhava aos outros. (oficial inglês)
23 de Outubro de 1942:
A noite, 1100 tanques e mil canhões foram colocados
em posição.
- Eu estava com o meu batalhão a colocar minas
diante das nossas próprias posições.
E a Batalha de El Alamein começou, e vimos todo
o horizonte a explodir. (soldado alemão)
- Muitos julgam que El Alamein foi uma grande barragem
de artilharia com toda a gente à espera atrás,
e que todos esperaram que parasse para começar
a combater, mas não foi nada disso. (oficial
inglês)
- Foi uma batalha sangrenta. Fomos para a frente da
barragem de artilharia. Ficamos a poucos passos da artilharia
que caía à nossa frente. (oficial inglês)
- De manhã, ficamos desiludidos, para não
dizer pior, porque os tanques deviam ter-nos ultrapassado
e nem tinham chegado. Ninguém tinha chegado.
Quando os sapadores tiraram as minas e abrimos um caminho,
os alemães perceberam o porquê e bombardearam
essa abertura. (oficial inglês)
- Havia sempre aquela incertezas se o chão ia
explodir ou não, mas esquecemo-nos disso quando
um morteiro cai ao nosso lado e uma metralhadora dispara.
Ouvem-se gritos, gemidos. Foi uma batalha de desgaste.
(oficial inglês)
- Esta batalha foi travada, e acertadamente, de um modo
que continuava a ofensiva até destruirmos a resistênciado
inimigo, e isso demora algum tempo.(Field
Marshal Lord Harding)
- A infantaria cumpre o objetivo de destruir os canhões
anti-tanque, e, com a desminagem dos campos, então,
o tanque pode avançare explorar a situação.
Mas, até que isso aconteça, sem êxito
não há tanques.
Montgomery perdeu 200 tanques nos dois primeiros dias,
tantos quantos os que os alemães tinham inicialmente.
Rommel, de regresso a África embora não
estivesse recuperado, contra-atacou, e furioso porque
os panzers não terem avançado quando os
britânicos ficaram presos nos campos minados.
Mas jé era demasiado tarde. Rommel sofreu perdas
irreparáveis. As baixas foram elevadasde ambos
os lados.
- Eles seguraram a posição. Era realmente
teimosia. Quando terminamos, percebemos o número
de baixas. Tentavamos convencer-nos de que não
nos ia acontecer nada e, de repente, percebemos que
nem sempre nos safamos. (oficial inglês)
Foi um jogo de matança, como Monty previra,
um jogo de matança, horrível e sangrento.
Uma batalha da 1ª Guerra travada com armas da 2ª
Guerra. A batalha de desgaste corria a favor de Montgomery.
Chegara o momento de mandar avançar os blindados.
800 tanques Sherman, os mais recentes e melhores da
América, foram lançados contra alemães
e italianos. E Rommel tinha menos de 100. O combate
foi novamente intenso. Rommel começou a ceder.
A batalha esteve ao rubro dois dias. Foi a maior das
batalhas com tanques da guerra do deserto. A Rommel
restavam-lhe apenas 35 contra os 600 de Montgomery.
Quando Rommel pensava em recuar para manter uma frente
100 km atrás, Hitler ordenou-lheque mantivesse
a posição.
- Uma maneira horrível de morrer é ficar
preso dentro de um tanque quando este começa
a arder.
Nunca esquecemos o horror dos gritos dos homens a tentarem
sair. (oficial alemão)
Os blindados britânicos passaram. E na tarde
de 4 de Novembro, no 12ª dia de batalha, Rommel
batia em retirada. Um general de Rommel, von Thoma,
foi capturado. Alexander avisou Churchill para mandar
tocar os sinos da vitória, o que Winston fez.
Era a primeira vez que tocavam na Inglaterra desde Dunquerque.
No dia 6 de Novembro,caiu uma chuva intensa que atrasou
perseguidores e perseguidos. Os comandantes de Montgomery
queriam apanhar Rommel antes que conseguisse reorganizar-se.
Monty não ia arriscar-se a ser capturado.
- Montgomery tinha consciência de que já
tínhamos avançado e recuado duas vezes,
e estava determinado em não terde recuar uma
terceira vez. (oficial inglês)
A Força Aérea (RAF) dificultou a retirada
de Rommel.
- Não tinha para onde fugir. Só podiamos
correr para o deserto. É nisso que a guerra no
deserto se diferencia. Só tínhamos de
nos mover para ficarmos expostos. (oficial alemão)
Depois de Mersa Matruh, SidiBarrani, através
de Halfaya Pass, Rommel foi empurrado para trás
e obrigado a lutar todos os dias. No dia 13 de Novembro,
para grande alegria de Churchill, Tobruk foi reconquistada.
Uma semana depois, Bengasi mudou de mãos pela
quinta e última vez.
Em meados de Janeiro de 1943, Trípoli foi reconquistada.
O premio que escapara a Rommel dois anos antes. Por
fim, os britânicos tinham algo para festejar.
Para Churchill, era a vitória por que tanto ansiara,
antes de a América dominar a guerra.
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