A Flak salva o Afrika Korps
Auchlnleck pensara, originalmente, em começar a sua ofensiva nos meados de maio, porém chegaram-lhe informações a respeito do importante reforço de tanques recebido por Rommel, levando-o à conclusão de que a superioridade britânica ainda não era suficientemente grande. Por esse motivo, o Gabinete de Guerra Britânico adiou a ofensiva para os meados de junho. Era uma decisão de graves conseqüências.
Rommel, pelo contrário, fixara desde abril o início do seu ataque para 26 de maio. No começo da execução do seu plano ele introduzira um novo ardil, resultante da disposição especial das posições de defesa britânicas. A frente de Gazala, na qual os tommies se haviam enterrado, era um milagre de técnica. Ela estendia-se desde a costa até Bir-Hakeim bem fundo no deserto e tinha o comprimento de 65 quilômetros. Era um sistema de defesa aperfeiçoado, composto de pontos de apoio chamados "box", de dois a quatro quilômetros de diâmetro, cercados de minas. Os "box" tinham o seguinte aspecto: primeiro uma larga circunferência de farpados, depois um campo de minas articulado em profundidade com posições de artilharia enterradas, postos de escuta, ninhos de metralhadoras e postos avançados. Dentro, no meio, a guarnição, habitualmente da força de uma brigada, dispondo de tudo para se defender por muito tempo. Atrás dos "box" estavam as reservas de operação, as forças blindadas e as unidades motorizadas. A guarnição tinha por tarefa guardar o campo minado, de maneira a que o adversário não pudesse abrir caminho sem ser estorvado, como freqüentemente sucedia antes. Além disso, os "box" eram ninhos de resistência que um adversário ofensivo teria de neutralizar, depois de quebrada a frente, se não quisesse arriscar-se a ser atacado pelas costas e nos flancos e a ver suas linhas de reabastecimento constantemente cortadas por ataques perturbadores. E ainda mesmo quando o assaltante se ocupasse dos "box", as forças blindadas, que estavam distantes das suas posições, podiam ser lançadas contra ele.
Rommel tinha apenas duas possibilidades para a sua ofensiva contra Tobruque: ou um ataque de frente sobre os "box", com ruptura e aniquilamento das forças blindadas inimigas, ou então uma manobra de desdobramento da posição de Gazala pelo sul, um avanço pela porta traseira até ao próprio coração das instalações defensivas, separando assim as forças de batalha colocadas nos "box", das forças blindadas que poderiam ser aniquiladas umas após outras.
Rommel não seria Rommel se não escolhesse a segunda eventualidade, e naturalmente enganou o adversário com um ataque frontal para fazer diversão.
Ele dispunha de duas divisões blindadas alemãs e uma italiana, além de uma divisão motorizada alemã e uma italiana, completadas por quatro divisões de infantaria italianas. O 8.° Exército do general Richtie compunha-se de duas divisões motorizadas e de uma divisão de infantaria, estacionadas na posição de Gazala.
Duas outras divisões reforçadas estavam dispostas à maneira de ouriço na retaguarda, sobre a linha Tobruque-EI-Adem. Duas divisões blindadas eram conservadas como forças de choque de manobra. Brigadas da Guarda, uma brigada de franceses livres e brigadas indianas ocupavam os box. Um pelo outro, cada exército dispunha mais ou menos de 10 divisões e 100.000 homens. Do lado de Rommel contavam-se 320 tanques alemães, 240 tanques leves italianos e cerca de 90 canhões de lagarta.
Richtie possuía 631 tanques e recebeu ainda mais 250. Era a mais poderosa armada de blindados que ainda se vira até então num campo de batalha.
"Atacar às 14 horas, em pleno dia? Por Deus, é um negócio que não me agrada", rosnou o cabo-chefe Bruno Preuss da 2ª Companhia do 361.°. Bruno começava todas as suas frases com um "por Deus" e era essa igualmente a sua conclusão habitual. Aliás, era essa também a sua alcunha entre os rapazes do 361.° e da 90ª Ligeira, os veteranos da Legião Estrangeira Francesa, bombeiros da infantaria em áfrica, soldados extraordinários e camaradas generosos. Quando Rommel se ia acercando das suas posições, dizia ao seu chofer Huber: "Põe uma corrente no teu pneu de reserva, estamos chegando ao 361.°."
A 26 de maio, nessa hora de ataque desacostumada, o 361.° compunha a principal tropa de assalto frontal do general Crüwell contra a posição de Gazala. À direita e à esquerda achavam-se os infantes italianos de dois corpos de exército, e atrás deles marchavam às unidades motorizadas do Afrika Korps. Tudo com grande quantidade de tanques fictícios e máquinas de fazer poeira, motores de aviões montados em caminhões erguendo tanta poeira com suas hélices que os reconhecimentos inimigos imaginavam atrás das nuvens a presença de todo um exército panzer. Era o ardil. Os ingleses deviam supor que ali, no setor norte e médio da posição de Gazala, Rommel atacava de frente com todas as suas forças. Tudo fora arranjado com uma enorme maquinaria de teatro. Num dado minuto a artilharia rompeu numa larga frente e as metralhadoras entraram a crepitar. O deserto foi como abalado. Os Stukas roncaram por cima dos "box". O tenente Pfirmann, que aos dezenove anos comandava a 2ª Companhia do Regimento 361, levantou os braços para o ar. Curvados em dois, os veteranos da Legião Estrangeira correram para os campos de minas. Bruno Preuss e seu amigo Eric foram os primeiros a chegar aos postos avançados ingleses, ao "box" da 50ª Divisão. Gritaram "mãos ao alto!", e como resposta receberam nos pés o jato de uma metralhadora sul-africana, bem camuflada. As pedras do deserto voavam-lhes aos ouvidos. Atirando-se ao chão, Preuss esvaziou a cartucheira da sua metralhadora, e depois ficaram ambos bloqueados no solo. Em toda a frente os dispositivos dos "box" fecharam os seus rolos de arame. Diante dos assaltantes, numa extensão de 65 quilometros, havia arame farpado e mais 1.000.000 de minas entre a costa e Bir-Hakeim. Como de costume e como em toda a parte, no momento dos grandes ataques, reinou a confusão nos estados-maiores britânicos. Que é que há? Quais são as intenções do inimigo? Para onde se dirige o seu esforço principal? O reconhecimento aéreo não informa grande coisa, mas constata um avanço maciço de unidades motorizadas atrás da infantaria do ataque frontal.
Rommel, portanto, quer romper a frente, mas o general Ritchie é prudente em seu prognóstico, conhece as manhas do adversário. Os foguetes iluminam o campo de batalha, os enfermeiros saltam por entre os farpados destruídos, a artilharia continua a troar, as metralhadoras latem. Atrás das linhas alemãs reina uma azáfama extraordinária, mas não para um novo ataque. Tudo o que o reconhecimento noturno dos ingleses pode avistar, unidades motorizadas e unidades de tanques, virou de bordo subitamente e retira-se, enviesando para o sul, para o centro de reunião da mais formidável formação blindada de guerra que deve conduzir o verdadeiro ataque, contornando Bir-Hakeim para colher o inimigo pelas costas. Às 20,30 hs. chega à palavra de código de Rommel: "Venezia".
Como um gigantesco cortejo de fantasmas, os 10.000 veículos do grupo ofensivo põem-se em movimento à claridade lunar. Cinco divisões rolam ao compasso e ao contador quilométrico através do deserto. Ao volante dos caminhões e dos pesados veículos tomados aos ingleses, estão sentadas as raposas mais experimentadas das divisões motorizadas de Rommel: os capitães da pista, os condutores dos comboios de equipagem, em seus caminhões de três toneladas, os homens nunca citados em nenhum comunicado da Wehrmacht e em nenhuma ordem do dia do exército. Eles guiam nas pistas ardentes ou na treva glacial, sob tempestades de areia, durante 200, 300, às vezes até 700 quilometros. Consertam seus veículos à temperatura de 50°, e isso quantas vezes! Pois oito a dez estouros de pneus por dia não constituem exceção. Os pneus rebentam como balões de crianças, os macacos enterram-se na areia e não há ninguém para ajudar e também ninguém para comandar. Eles consertam, suam, põem-se de novo ao volante e guiam sob a constante ameaça dos caças e das autometralhadoras inimigas. Estão exaustos, descarnados, mas são artistas na condução, verdadeiros corredores de pista e a tropa estimam-os.
Onde a poeira é mais espessa lá está o homem de vanguarda. É preciso segui-lo, orientadores instalam-se aos lados, agarrando-se ao radiador. Assim eles têm um metro de visibilidade pela frente. "Mais depressa, mais depressa!" gritam estes ao condutor. Mas logo é necessário frear bruscamente para evitar uma colisão. Os mais infelizes são os motociclistas, que recebem a poeira às golfadas no rosto. Suas motos atolam, é necessário retirá-las, empurrá-las.
"Os motorizados na frente." São eles que intervêm em todos os casos graves: levar munições, dirigir os canhões antitanques, retirar os feridos da linha de fogo. Aqui está, na 9ª Companhia do 104º Regimento de granadeiros, o cabo-chefe Borstel de Stendal. Na vida civil era oficialpintor, e já na Polônia era agente de ligação motociclista. Quando a companhia, no combate da floresta de Odrzywol, perdeu numa hora 52 homens, ele rompeu com seu sidecar por entre as árvores contra os atiradores de elite poloneses. Levava munições, retirava feridos. Esteve também na França, patrulhando no Reno e na Savóia.
Desde o começo de abril de 1941 que serve na África. Participou de todos os combates, a disenteria arrasou-o. Está magro como um esqueleto, mas sempre guiando a sua moto. É um das centenas de milhares de homens que carregam nos ombros o fardo da guerra. E por quê? Por que não se revolta? Por que continua a rodar, a suar, a combater e a morrer? Se fizessem essa pergunta ao cabo-chefe Borstel, talvez ele não soubesse responder; abanaria a cabeça, encolheria os ombros e diria: "Quem tem a sorte... de qualquer maneira está perdido." Os motociclistas na frente!
Têm os rostos queimados, de um pardo escuro. O cabo-chefe Hermann Thiel pragueja a meia-voz e leva aos lábios a sua botija de gin. Dentro dela tem café, como sempre, salgado, mas que assim mesmo limpa a poeira da garganta. Vai rodando, o objetivo chama-se a estrada costeira a oeste de Tobruque. Para o soldado isso significa poeira e calor, não importa em que lugar do deserto. Mas para Rommel quer dizer: cortar em duas partes o setor de marcha do 8.° Exército atrás da posição de Gazala, e em seguida bater as unidades dispersas do adversário, umas após outras. É um velho princípio que já seguiam Napoleão, Frederico o Grande e os gregos. O golpe dará certo. Tudo parece indicar que sim.
Na manhã de 27 de maio, o gigantesco movimento de cerco em torno da ala sul perto de Bir-Hakeim teve êxito. Marcha-se agora para o norte. Na ala esquerda há uma divisão blindada italiana, a 90ª Ligeira e os grupos de reconhecimento na ala direita. Ao centro as duas divisões blindadas do Afrika Korps, a 15ª Divisão Panzer à direita e a 21ª à esquerda. O objetivo é sempre a estrada costeira entre Tobruque e a frente. Formada em larga cunha a 15ª Divisão avança, tendo à frente o 8.° Regimento blindado, sob as ordens de tenente-coronel Teege. Na vanguarda as companhias leves, e as pesadas na retaguarda. O regimento dispõe de 180 tanques. O 1.º Batalhão avança numa frente de 3 quilometros e numa profundidade de 1,5 quilometros em articulação profunda. O 2.° Batalhão marcha atrás, um pouco à direita. Não há ainda reconhecimento aéreo e o reconhecimento terrestre é impossível, porque o grupo de reconhecimento 33 foi retirado da divisão para uma ação especial contra Tobruque. O inimigo está em algum ponto, com as suas unidades blindadas. De repente, nos auscultadores do capitão Kümmel, a quem chamam o Leão de Capuzzo e que comanda o 1.º Batalhão, ressoa o apelo: "Tanques inimigos a 12 horas." São eles.
Os tommies acabam de descobrir os assaltantes: "Dirse-ia que Jerry chega com uma brigada blindada", anuncia o tenente James Steel no seu tanque de reconhecimento do 8.° Hussardos ao estado-maior do regimento. Mas, logo em seguida, corrige: "É muito mais que uma brigada, é todo o maldito Afrika Korps, alerta... alerta!" A batalha começou. Para o 8.° Regimento de blindados ingleses ela começou assim: "Tanques inimigos a 12 horas, ataque... ataque ... " Foi o que se ouviu nos receptores de todos os tanques.
Vêem-se ainda alguns pontos negros no horizonte. A massa dos tanques inimigos permanece habilmente camuflada atrás de uma pequena ondulação do terreno. A toda a velocidade o capitão Kümmel arremete contra eles. Dispara os seus primeiros tiros. O inimigo responde. Rola-se, para-se, atira-se, recomeça-se. Eis um tanque atingido, mais outro, que é isto? Como se compreende que os tommies disparem e acertem a muito maior distância que nós? Mais um impacto num tanque Panzer III. Neste negócio anda dente de coelho. Os chefes de tanques assentam os binóculos, os perfis, alem, são novos.
Serão tanques fictícios? Mas de repente surge um tanque nunca visto e que dispara.
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M3 Grant (Lee nos EUA.) Na sua estréia no deserto foi uma desagradável supresa para o DAK |
É a grande surpresa. O tanque americano Grant (Lee nos EUA) acha-se no campo de batalha com seu canhão de 77, dominando de longe o Panzer III que apenas dispõe de um de 50. Só o Panzer IV está à sua altura, mas infelizmente equipado com um canhão curto e de alcance ainda inferior ao do Grant. Existem poucos Panzer IV de tubo longo e não têm munições antitanques. A luta torna-se feroz. Quando os homens do 8.° Regimento recolhem os primeiros feridos, inteiram-se de que diante deles está a 4.a Brigada Inglesa Blindada. Ei-la outra vez ali, e tirando a sua desforra do Dia dos Mortos de 1941, dia em que o major Fenski cercou toda a brigada com o 1.º Batalhão do 8.° Regimento de Panzer. Sua desforra tem todas as probabilidades, de todos os pontos de vista. Não é apenas a surpresa do novo armamento que atua, mas também a circunstância de que o apoio de artilharia alemã para o 8.° Regimento tarda a chegar. As baterias do 33.° Regimento blindado estão desorientadas com a eficácia do fogo dos novos tanques inimigos. Enfim, ao amanhecer, as baterias não puderam manter a mesma velocidade dos tanques e acham-se ainda para trás. Acrescente-se a isso que os comandantes de bateria do 1.º Batalhão foram pela primeira vez equipados com Panzers II, postos à sua disposição pelo Regimento blindado. Constata-se que foi um erro. Os comandantes de bateria, nesses tanques, carecem de mobildiade e são mais ou menos eliminados, de modo que o 8.° Regimento luta praticamente sem apoio de artilharia. A esquerda o 5.°, sob o comando do coronel Gerhard Müller, acha-se em condições igualmente difíceis. O chefe de batalhão Martin cai na primeira linha, derrubado por um tiro em cheio.
Furiosos, os tanques de Teege procuram chegar ao contacto dos tanques Grant, apesar do alcance superior destes últimos. Um ataque habilmente conduzido do 2.° Batalhão contra o flanco dos ingleses logra finalmente a decisão. A tática de tanques do comando alemão triunfa e os palatinos conseguem repelir os ingleses. O 8.° Hussardos é empurrado e o 3.° Royal Tanks perde 16 tanques Grant.
O general von Vaerst que comanda a 15.a Divisão, a que pertence o 8.° Regimento de tanques, chega à frente no seu carro-comando. Ao alcançar a ponta da companhia mais avançada, o comandante de companhia grita: "Qual é o eixo de marcha?" Antes que Vaerst pudesse responder, seu ajudante brada: "Lá adiante... onde vai Rommel!" Isto parece inventado mas é verdade. O comandante-chefe está no meio das suas unidades blindadas, como faz freqüentemente, indicando-lhes ele próprio a rota.
A 4.a Brigada Blindada Britânica deveria ser o ferrolho protegendo o setor de marcha do 8.° Exército de Auchinleck, mas os tanques de Rommel fizeram-no saltar. O caminho está livre para a porta traseira. A 90ª Ligeira, sob as ordens do major-general Kleemann, 3 grupos de reconhecimento e o 20.° Corpo Italiano Motorizado, podem desse modo enviesar para El-Adem a fim de bloquear a guarnição de Tobruque e isolar os ingleses dos seus depósitos de reabastecimento a leste dessa praça. Toda essa parte do plano obtém êxito.
As 21ª e 15ª Divisões Panzers, sob o comando de Nehring. avançam para o norte, paralelamente à posição de Gazala. As divisões blindadas inglesas deverão ser isoladas das suas bases de reabastecimento e desbaratadas sucessivamente. Esta parte do plano não vinga. Os homens que estão nos tanques, nos caminhões e nas motocicletas, a 27 de maio, ainda não sabem disso. Continuam rodando, desmontam, atiram, partem de novo, param, atiram, tornam a partir. A 21ª Divisão Panzer. abre caminho lutando até Akroma. A infantaria e os tripulantes dos tanques vêem à sua frente à via Balbia, além da qual referve o mar, o objetivo. O inimigo já estará derrotado? Ninguém acredita nisso completamente, porém marcha-se para diante, e como se marcha para diante o moral é bom; todavia o avanço nem sempre quer dizer vitória.
O tenente Paulewiecz, comandante de companhia no 2.° Batalhão do 104.° Regimento de granadeiros, tem um trago especial para os dias críticos. Hoje não adianta procurá-lo, é o seu aniversário. Duas horas antes do cair da noite, capturou um caminhão inglês de que justamente precisava para o festejar. Está inteiramente carregado de cerveja em caixas e de whisky em garrafas. Haverá para toda a companhia. Quebramse os gargalos na carroçaria. A bebida, na África, não deixa também de ser um bom reconfortante. Mas os comandantes de regimentos não se sentem à vontade. Sabem que o objetivo do Afrika Korps não foi atingido. As unidades inimigas colocadas entre a posição de Gazala e Tobruque não puderam ser desbaratadas. O general Ritchie não fez o que Rommel esperava dele. Recusou a batalha, recuou com suas forças blindadas para leste e fustiga agora o flanco interminável desse exército de 10.000 veículos em toda a sua extensão.
Os novos tanques Grant causam às forças blindadas alemãs perdas severas. A Royal Air Force estraçalha com bombas as colunas de reabastecimento, e ataques provenientes dos "box" da posição contornada, mais especialmente de Bir-Hakeim, infligem a Rommel danos sangrentos.
A sorte não parece agora estar do lado de Rommel. Não apenas o novo tanque Grant é uma desagradável surpresa que escapou totalmente aos serviços secretos alemães, como ainda surgiu um novo canhão antitanque inglês. É a peça de 6 libras equivalendo mais ou menos ao calibre de 75mm e que despedaça os tanques alemães. Na verdade os ingleses sempre aprenderam alguma coisa e o auxílio americano começa a concretizar-se. A marcha em comboio detém-se. O plano de Rommel, que era marchar do sul até à costa através das retaguardas de Ritchie e dispersar as forças inglesas, malogrou. Contudo as autometralhadoras de reconhecimento da 90ª Ligeira avançam até El-Adem e o grosso do Afrika Korps chega, bem longe ao norte, com seus batedores de ponta alcançando a estrada costeira. Sobrevém então uma nova desilusão: todo o comboio de combate do Afrika Korps está cortado do resto do exército.
Repentinamente tudo se esclarece. Não foi Ritchie, senão Rommel que caiu na armadilha. As linhas de abastecimento da 90ª Ligeira e suas ligações com o Afrika Korps estão cortadas. Os tanques de Ritchie cortam igualmente as divisões panzers, que combatem ao norte, do seu comboio de combate e do seu aprovisionamento.
Constata-se que o reconhecimento alemão cometeu graves erros. Rommel não foi avisado da presença de importantes unidades inglesas. Não só o não avisaram da existência dos tanques Grant, como também o deixaram na ignorância do novo antitanque de 6 libras, e mais do que isso, ele não sabia exatamente quão diabólica era a instalação dos pontos de apoio de Gazala, qual era à força da guarnição do "box" Knights Bridge. Ao fim da tarde do dia 27 a situação tornou-se extremamente crítica. Ao norte, as unidades blindadas achavam-se imobilizadas. A leste, a 90ª Ligeira estava quase cercada. A tropa exausta. Falta de abastecimentos. Falta de água. Feridos não podendo ser cuidados nem transportados, deixados ao abandono no deserto. Que fazer? O chefe de estado-maior do exército Westphal não consegue alcançar Rommel, que está na frente com as unidades em luta. Westphal logra por Nehring em comunicação pelo rádio com o Afrika Korps, e, juntos, tentam remediar a situação.
O general Nehring descreve-me assim a situação na tarde de 27: às 16 horas verificou-se o ataque de cerca de 65 tanques pesados, vindos de leste, no flanco da 15ª Divisão Panzer que marchava em direção ao norte. O batalhão enviado para proteger o flanco foi desbaratado. Os comboios de combate e os caminhões de reabastecimento que seguiam atrás fugiram para o sul e o oeste. A situação da Divisão cujos tanques estavam bem na frente, assim como de todo o Afrika Korps, tornou-se, por esse fato, muito crítica no espaço de alguns minutos.
Era uma dessas situações que se transformam em catástrofe militar para exércitos inteiros, e são também as ocasiões em que um único pensamento ousado basta para neutralizar a derrota e mesmo transformá-la em vitória. O homem que teve essa idéia e enriqueceu a história militar com uma nova tática chamava-se Walther K. Nehring e o homem que materializou essa idéia foi o coronel Alwin Wolz.
O general Nehring e o coronel Wolz do 135.0 Regimento de Flak viram-se, no momento em que faziam um reconhecimento, subitamente no meio das unidades do comboio, das colunas de abastecimento e dos estados-maiores que fugiam em desordem diante dos ataques dos blindados ingleses. O coronel Wolz referiu-me o caso nestes termos: "Depois de rodar por muito tempo, esbarramos com os veículos em fuga do estadomaior do Corpo de Exército, já completamente desbordados e empurrados pelos fugitivos do comboio de combate. Havíamos perdido toda a nossa companhia de comando regimentar, de sorte que o nosso grupo de comando estava reduzido a quatro homens. Na massa dos fugitivos, avistei de repente alguns canhões Flak 88. Corremos para o tumulto e achamonos de repente diante de Rommel, que estava "atolado" na massa dos fugitivos. Furioso, ele gritou-me que a Flak era responsável por toda aquela desordem, visto que não atirava. Consegui sair dali e precipitei-me para os canhões. Obriguei-os a parar, e no espaço de alguns minutos juntei três 88. No minuto seguinte, consegui ainda trazer a outra metade da bateria pesada do esquadrão do Corpo. Nesse instante, a 1,5 km, chegava já a toda a velocidade a armada inteira de tanques inimigos. Vinte, quarenta tanques pesados, e diante deles as colunas de reabastecimento do Afrika Korps que fugiam em desordem, sem armas, entregues à sua mercê. Em meio ao caos, Rommel, os estados-maiores do Afrika Korps, os estados-maiores dos regimentos e os veículos-rádio. Por outras palavras, a musculatura e os centros nervosos das unidades que combatiam na frente. A decisão estava no ar, ou, para melhor dizer, a catástrofe. Nunca até então eu conseguira pôr mais rapidamente em bateria as peças da minha unidade. Quando pretendi dar a ordem de "fogo à vontade", hesitei. Com o meu binóculo, via os tanques inimigos prestes a precipitarem-se sobre o batalhão de infantaria que garantia a ala direita do Corpo. Se tal acontecesse, não poderia ordenar o tiro sem aniquilar as minhas próprias tropas. Cumpria assim atirar, mas atirar certo. Dei a ordem de "fogo à vontade". Os 88 cuspiram seus obuses. Ao primeiro impacto os ingleses estacaram. Os tanques que haviam penetrado no nosso batalhão perderam a cabeça diante daquela resistência inesperada e recuaram. Mas logo se refizeram para um novo ataque.
“Uma frente de Flak! Gritou o general Nehring. - Wolz, organize uma frente de Flak com todos os canhões disponíveis para flanquear a nossa ala” Era a idéia da hora. Por sorte, o major Gürke chegou com outra bateria pesada. Meia hora depois chegou o general adjunto com as baterias pesadas pertencentes ao esquadrão do exército que Rommel pessoalmente dirigira para o local. Com pressa febril consegui organizar uma frente de Flak de 3 quilômetros de largura diante dos tanques ingleses." Apenas Wolz levantara a sua poderosa muralha de canhões, o inimigo apresentou-se de novo, com suas torres amarelo-clara. Os tanques de comando traziam suas bandeirolas nas antenas. "Fogo à vontade" a 1 200 metros. Dezesseis canhões de 88 cuspiram de um só golpe os seus obuses contra os tanques ingleses que atacavam sem descontinuar. O canhão Dora alcança a 1 600 metros, com três tiros, um Grant que recua. Os tanques de fabricação americana não estavam acostumados a essa linguagem. Atiram, não obstante, tudo o que os seus canhões podem cuspir. Enraivecidos, os ingleses continuam a atacar.
Tinham vislumbrado a sua possibilidade de vencer e queriam aproveitá-la. Mas, quando a noite desceu, doze colunas de fumaça testemunhavam diante da Flak a sua eficácia. Era o primeiro caso na história da guerra em que um comandante de artilharia de D.C.A. levava as suas unidades pesadas a um combate de perto com os tanques. Porém o assunto não terminara. Os ingleses trouxeram artilharia e começaram a martelar as posições de Flak. Queriam a todo o custo arrombar aquela muralha de aço, e o destino do Afrika Korps dependia dessa muralha. O general Nehring tinha instalado o seu posto de comando cerca de um quilômetro atrás da linha de Flak, marcando assim a importância decisiva desse setor. A artilharia inimiga mantinha as baterias de 88 sob uma chuva ininterrupta de abuses. Algumas peças perderam todos os seus serventes. O major Bürke e o coronel Wolz percorriam continuamente à frente para galvanizar os artilheiros, pois qualquer fenda na muralha teria conseqüências imprevisíveis para todo o Afrika Korps. A tempestade de areia que recobriu toda a cena com seu manto de poeira foi recebida como uma bênção.
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Flak 88 em ação antitaque no Norte da África |
O perigo imediato estava afastado, mas a grande crise ainda não terminara. A situação entre os blindados tornava-se cada vez mais séria por falta de aprovisionamento. "Como vai Crüwell com seu ataque de frente?", perguntou Rommel ao seu chefe de estado-maior Gause, na tarde de 28 de maio; e continuou ordenando: "Ele deve atacar pelo oeste, passando através da barragem de minas para que tenhamos as costas livres." Crüwell é mobilizado pelo rádio. Deixemos agora o próprio general Crüwell contar o que sucedeu:"Na noite de 28 para 29 de maio, chegou-me um rádio do general Rommel ordenando-me que atacasse imediatamente com um dos corpos italianos que estavam sob as minhas ordens. Enviei o comandante de artilharia, coronel Krause, à frente, avisar o general italiano. Ele devia agir de modo que, a partir das 8,30 hs, uma sentinela estivesse preparada para assinalar com um foguete, ao meu avião, o local da frente italiana. Levantei vôo às 8,30 hs., meu piloto não tinha à mão o mapa adequado. O chefe da Aeronáutica na África, general von Waldau, deu-lhe instruções precisas: primeiro, até ponto Segnali; depois, exatamente na direção leste. Logo me apercebi de que voávamos sempre para o sul. Meu piloto tranqüilizou-me achando que não erraríamos os foguetes. Mas o que eu temia não tardou a verificar-se: estávamos em cima das linhas inglesas. Voávamos a cerca de 150 metros de altitude e recebíamos fogos de metralhadora. Uma rajada atingiu a fuselagem, outra varou o motor e a terceira derrubou o piloto que caiu morto a meu lado. Por milagre o aparelho não caiu, antes fez por si mesmo uma aterragem de ventre na qual o trem de pouso ficou destruído. O aparelho saltou em pedaços em redor de mim, mas por sorte a porta não ficou bloqueada. Eu achava-me nas primeiras linhas inglesas do "box", que eram ocupadas pela 150.a Brigada Inglesa. Inumeráveis tommies correram para me capturar. Um ano depois soube pelo general Krause, o qual fora feito prisioneiro em Tunis, que os foguetes não tinham sido atirados porque o oficial que recebera ordem de dispará-los fora chamado ao telefone do seu abrigo no mesmo instante em que eu voava sobre ele." Eis exatamente como se passaram as coisas em 29 de maio de 1942. Naturalmente, o ataque frontal do corpo italiano foi retardado, mas, entretanto o Feldmarschal Kesselring precipitou-se na brecha e assumiu o comando de Crüwell na frente de Gazala, propondo imediatamente a Rommel colocar-se, ele Feldmarschall, às ordens do seu subordinado.
Rommel manteve uma conferência sobre a situação. Nehring, Gause, Westphal e Bayerlein todos concordaram: a situação é muito grave. Pedem que se abra uma brecha para saírem do cerco. Como Crüwell não pudera fazer a penetração, restava como única possibilidade abrir uma brecha para oeste, através da posição de Gazala, a fim de retomar contacto com as bases de reabastecimento. Rommel hesitou, mas por fim aceitou. A batalha estava perdida, mas uma decisão ousada poderia evitar o pior. A 30 de maio, pouco depois da meia noite o plano foi posto em aplicação. Ao amanhecer, o poderoso campo minado do inimigo na linha principal de combate de Gazala é alcançado por leste. Trata-se agora de abrir uma passagem por entre os campos de minas ingleses, a fim de lograr uma possibilidade de reabastecimento. Rommel abandona o campo de batalha ao inimigo, concede-lhe a vantagem de uma vitória: nunca se deve lutar na loucura, é a sua palavra de ordem.
Contudo, a operação não vingou. Chegou-se realmente a abrir uma passagem entre as minas, e a divisão italiana Trieste, atacando pelo oeste, fez bom trabalho de preparação. Mas agora a organização britânica dos "box" evidência a sua terrível eficácia. O comando alemão não conhece o "box" Got-el-Ualeb. Lá está, em meio a um cinturão de minas, a 150.a Brigada Inglesa: 2.000 homens com 80 tanques pesados Mark II. Eles conservam a passagem aberta no campo de minas sob o fogo da sua artilharia, de modo que é impossível atravessar de dia, e mesmo de noite é uma aventura arriscada. Além disso, acrescente-se que o general Rithchie conseguiu dominar a lentidão e a indecisão que habitualmente embaraçam a sua tática. Reformou as suas unidades blindadas e ataca. Em Knights Bridge a Guarda inglesa agüenta-se, e agüenta-se contra a 90ª Ligeira que ataca para oeste, acompanhada dos grupos de reconhecimento 3 e 33 e do grupo misto 580, comandado pelo capitão von Homeyer. As unidades da 21ª e da 15ª Divisões Panzers. estão em perigo de ser cercadas. E o ponto de apoio inglês de Got-el-Ualeb impede ainda a brecha salvadora para oeste. O movimento de recuo de Rommel significa para o general Ritchie o desbarato dos alemães. Ele telegrafa para o Cairo: "Rommel recua."
- "Bravo, 8.° Exército, desfira-lhe o golpe de graça", responde Auchileck ao quartel-general de Ritchie; mas ainda não chegamos a tanto.
"Got-el-Ualeb precisa cair. A 150ª Brigada Inglesa precisa sair do seu castelo e ser batida", ordena Rommel duramente. É a derradeira possibilidade; se ela falhar, então Rommel está em seu fim e seu exército também. Ele sabe disso, sabem-no seus subordinados e seus soldados começam a senti-lo. Assim o destino de um campo de batalha, como se lê muitas vezes na história da guerra, depende da capacidade combativa de uma brigada e da questão de saber se a ordem de aniquilamento é executável ou não.
Estamos em 1° de junho de 1942. Quem viveu esse dia na África nunca mais o esquecerá. Joga-se tudo por tudo. Rommel empenha pessoalmente o 5.° Regimento Blindado no assalto contra Got-el-Ualeb. Debalde, doze tanques ficam no campo minado. O grupo de combate Kiehl ataca, mas o fogo das metralhadoras inglesas e os disparos de artilharia maciços imobilizam seu assalto. Aquilo não pode continuar. Os chefes de unidades estão os telêmetros e perscrutam o terreno com os olhos: onde estão, afinal, esses malditos ninhos de metralhadoras? Onde termina o campo minado? Nehring e Bayerlein traçam em seus mapas tudo o que podem observar. Por fim resolve-se: "O velho batalhão de motociclistas deve vir aqui, o 3.° Batalhão do 104."
O estado-maior do batalhão instalou o seu P.C. num buraco de dois metros de fundura. Bem junto, um 88 tomou posição. Eis uma unidade de Stukas que chega. pelo ar, todos a observam para ver se ela vai bombardear as unidades blindadas inglesas que estão em frente. O tenente Kordel grita: "Meu Deus, estão atirando sobre nós!" Todos se jogam no chão, já as explosões trovejam, o 88 e seu trator são atingidos, as munições explodem e impedem os socorros aos feridos que por toda a parte se lastimam. Por toda a parte, também, ardem os caminhões. Os ingleses aproveitam logo a situação e atacam; só com grande dificuldade são repelidos. As pragas dos soldados aos pilotos não podem ser reproduzidas. Numa pausa da batalha ressoa o chamado: "O chefe de batalhão e seu ajudante ao P. C. da divisão."
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Gerenal von Bismark passando orientações |
O general von Bismarck que comanda a 21ª Divisão está sentado no seu ônibus e aponta no horizonte um tanque incendiado.
- Está vendo aquele tanque, Ehle?
- Estou, meu general.
- É lá que fica o ponto de apoio inglês Got-el-Ualeb. Tem ordem de tomar esse ponto de apoio com seu batalhão. É difícil, Ehle. Até agora todos os nossos ataques malograram. Informe-se e dê-me conta da maneira como pretende agir. O tempo urge, Ehle, acrescenta ainda Bismarck; e para concluir: o ataque será apoiado por um esquadrão de artilharia, comandado pelo major Beil.
No caminho do seu reconhecimento, Ehle encontra o major Beil que está com o general Nehring e o coronel Bayerlein, perto de um 88. Nehring e Bayerlein explicam-lhe a situação. Bayerlein orienta o ajudante de Ehle, o tenente Kordel, sobre o seu mapa. De repente alguém grita: "Cuidado, um avião a pique!" A explosão segue-se imediatamente, Ehle cai ferido. Não será ele a tomar Got-el-Ualeb. O capitão Reissmann assume o comando do batalhão e ataca. O tenente Wolff conta a esse respeito: "Tudo dependia de uma boa posição de partida, de um ataque rápido e marcha imediata para a frente. À primeira chama de tiro um ribombo de artilharia dava o sinal de ataque."
A 9ª companhia estava à esquerda, a l0ª à direita. O estado-maior do batalhão no meio e marchou-se a 60 quilômetros/hora sobre os 3 quilômetros que nos separavam da posição inglesa. Cada companhia tinha uma seção de pioneiros para neutralizar os arames farpados e as minas. A l0ª Companhia conseguiu no primeiro ímpeto varar através do campo minado, mas a 9.a ficou embrenhada lá dentro. Todo o fogo do ponto de apoio se concentrou sobre os homens e seus veículos. Foi quando o capitão Reissmann gritou ao seu oficial de ligação: "Wolff, corra à 9ª: é preciso que os homens saiam das minas; ficar no lugar é pior do que, marchar ao assalto!"
As instruções dizem sempre que nunca se deve fazer movimento perpendicularmente à frente inimiga. É bom de dizer, mas deve-se então correr três quilômetros para trás e depois três para a frente? Quando uma pessoa está sentada à escrivaninha isso pode parecer correto, mas quem o faria em caso de urgência? Em saltos rápidos, Wolff esgueira-se para a 9ª companhia. Contudo, as instruções têm razão. O ingleses acha-se instalado numa excelente posição, bem camuflada. Basta-lhe agüentar, e ele agüenta. E por isso derruba o tenente Wolff. Um estilhaço de obus despedaça-lhe o ombro. Wolff corre assim mesmo e chega cambaleando à 9ª companhia. Ampara-o o alferes Friedrich. Por ordem de Wolff ele reúne os pioneiros e alguns homens decididos, abre uma passagem através das minas e faz passar a companhia.
Agora o negócio é claro. Três saltos e estender-se no chão. Outros três... Há uma maldita metralhadora inglesa em frente. Mas eis que ela se cala. Terá encravado? Corre-se mais, cada vez mais depressa. Quem ganhará? Os ingleses acabam de reparar sua arma quando o alferes Friedrich chega junto deles e grita: "Mãos ao ar!" E as mãos levantam-se. Tomam-se assim as primeiras posições dos ingleses, combate-se a granada ou a revólver-metralhadora, em corpo a corpo. A artilharia de Beil atira diretamente sobre as posições camufladas dos britânicos, os Stukas uivam e largam suas bombas, mas agora com precisão.
Em meio à luta, Rommel aparece de repente ao lado de Reissmann. À direita e à esquerda as metralhadoras cospem fita após fita. Rommel brada: "O inimigo enfraquece, Reissmann, agite-lhe panos brancos, ele vai render-se." Como sempre que está excitado, volta ao seu dialeto suábio. "Agitar panos brancos, agora! Pensa Reissmann, é uma idéia fixa do velho. Os ingleses batem-se como diabos, que vão adiantar os nossos acenos?" Mas Rommel começa ele próprio a agitar seu lenço branco. Os demais fazem o mesmo, pelo menos os que têm lenços brancos. Alguns tiram o cachecol e um deles chegou mesmo a arrancar a camisa que agita freneticamente acima da cabeça. O inverossímil produz-se, os ingleses saem dos seus buracos com os braços no ar. Dois mil homens se rendem. Rendem-se aos trezentos homens do 3º Batalhão do 104.° Regimento de Panzergrenadier. A 150.a Brigada capitula, Auchinleck perdeu a última oportunidade de dar o golpe de graça em Rommel. Este esperava encontrar em Got-el-Ualeb, prisioneiro no box, o general CrüweIl que fora abatido a 29 de maio, mas os ingleses tinham-no levado algumas horas antes do ataque alemão, numa autometralhadora. O cozinheiro dos oficiais ingleses foi capturado e contou que preparara para Crüwell um rumsteak com todo o capricho, mas que esse prato não agradara ao general.
As perdas do 3.° Batalhão eram pesadas. Entre os oficiais e os homens caídos contava-se um velho guerreiro, embora fosse ainda jovem pelo número de anos. Era um homem que todos estimavam muito, o cabo-chefe Borstel. Lá estava ele com sua moto, um das rara máquina que ainda funcionavam no batalhão. Ele trouxera os primeiros feridos para a retaguarda e levava caixas de munições aos combatentes através das minas sobre as quais se concentrava o fogo inimigo. Quatro vezes seguidas conseguira ir e voltar; à quinta receberá um tiro no ventre, o ferimento mais temido na África. Conduzia um ferido grave no seu sidecar. "Preciso levá-lo à enfermaria", era a única idéia de Borstel. "Preciso levá-lo, do contrário ele morre e eu também." Por isso Borstel não desceu da sua moto, não chamou os enfermeiros, antes prosseguiu guiando com a mão esquerda apertada contra o ferimento, e a direita no guidon. Assim conseguiu chegar ao posto sanitário, onde caiu da motocicleta falecendo algumas horas depois.
Era o posto sanitário de Trigh Capuzzo, do qual muitos soldados se hão de lembrar. Os que apreciam as vitórias não deveriam esquecer os postos sanitários.
O sol brilhava impiedosamente sobre Trigh Capuzzo. Feridos gemiam de dor e pediam água. As macas estavam alinhadas umas contra as outras na areia. Enfermeiros circulavam apressadamente entre os feridos. "Mais um cobertor", gritava o suboficial, e introduzia-o cautelosamente sob o corpo dolorido de algum artilheiro: "Tudo irá bem, camarada; vou dar-te uma picada e tudo irá bem..." O artilheiro abanava a cabeça com um olhar cheio de aflição.
Ao entardecer, o primeiro transporte devia conduzir os feridos para o grupo sanitário divisionário. Os enfermeiros mal podiam manter-se nas pernas. O médico auxiliar cambaleava. Às 20 horas a coluna de cem caminhões estava pronta para partir. Havia poucos veículos sanitários e a distância até ao grupo de Tmimi era de 120 quilômetros. Na traseira do caminhão estava estendido o capitão Eckert, do grupo de combate Kiehl, que fora ferido diante de Got-el-Ualeb, e ao lado dele, o tenente-general von Vaerst que recebera um ferimento em 27, e junto deles dois soldados feridos no peito, além de outro com um sério ferimento na perna. Pouco adiantava instalá-los com o máximo cuidado possível, se o condutor não podia escolher o caminho. Foi um trajeto pavoroso. Depois dos primeiros quinhentos metros todos começaram a gemer, e em seguida a gritar. A estrada continuava através de buracos e pedregulhos. Impossível abandonar a trilha sem o risco de passar sobre uma mina. Cinco tanques e cinco autometralhadoras comboiavam a coluna. Para a frente, sempre para a frente. Os ingleses tinham marcado a passagem no campo minado e atiravam sobre ela com sua artilharia. Quem agüentaria guiar com aqueles gritos desesperados vindos detrás, e como agüentariam os próprios que gritavam? O condutor para, os que ainda podem mexer-se ajudam os feridos graves a acomodar-se um pouco melhor, e logo os abuses começam a cair em torno dos veículos. É preciso avançar. Com o tempo a coluna estira-se e é necessário tornar a parar. O trajeto dura dezenove horas, dezenove horas de sofrimento que puseram os feridos à beira da loucura.
No grupo sanitário divisionário, médicos e enfermeiros estão exaustos, mas continuam trabalhando. No calor sufocante, sob as tendas cobertas de poeira o suor escorre pelos corpos. Mas há gelo, champagne e os que podem suportar recebem-no. Há também vinho tinto e limonada gelada. Os transportes de feridos continuam a afluir. Os rostos dos médicos e enfermeiros endurecem. Na grande tenda de operações os instrumentos retinem. As palavras são raras.
- Transfusão de sangue, diz o interno olhando o rosto amarelo do ferido, estendido na mesa de operação. A vida flui através do tubo de borracha, enquanto o cirurgião entra.
- Comece a anestesia, por favor.
- 8, 9, 10, 11, 12...
- Escalpelo.
Há um silêncio, durante o qual se ouve o tilintar dos instrumentos.
O cirurgião endireita-se, continuam as trocas de palavras.
- Está morto.
O major-médico Dr. Linz perdeu mais uma vez. Mas não abandona a tenda, espera o próximo que talvez consiga salvar.
Felizes os que escapam à morte, no grupo sanitário, e chegam ao hospital de Derna, à borda do Mediterrâneo.
O major Ehle, que foi ferido à frente do 3.° Batalhão diante de Got-el-Ualeb quando a 150.a Brigada se rendeu, chega a Derna. No quarto onde o instalam há já dois leitos ocupados: um major-general e um tenente-coronel, a julgar pelos uniformes que pendem ao lado das camas. Dormem ambos sob os mosquiteiros. O major Ehle faz o mesmo. Quando acorda, avista por entre o tule do mosquiteiro o Feldmarschall Kesselring que se encontra no quarto em visita aos seus dois camaradas que são: o major-general Gause, chefe do estado-maior de Rommel e o tenente-coronel Westphal, seu chefe do 1.º Bureau. Também eles pagaram seu tributo a Got-el-Ualeb. Gause foi atirado por um obus contra um tanque e teve uma comoção cerebral. Westphal recebeu um estilhaço de morteiro na coxa. Kesselring não está de muito bom humor. "Meu caro Gause, não quero aborrecê-lo, mas isto não pode continuar assim. É impossível que o general Rommel prossiga andando assim na primeira linha. Ele não é mais um comandante de grande unidade ou de Corpo de exército. E como general de exército deve ser acessível a qualquer momento." Kesselring clama ainda durante longos minutos. "Senhor Feldmarschall, não se pode segurar o general Rommel; ele vai para a frente, e depois os carros-rádios não conseguem segui-lo ou são atingidos. E quando logramos contacto com outra-estação de rádio, é quase tarde demais. Mas, como quer o senhor que ele comande aqui na África; da retaguarda? Esta é uma guerra onde tudo precisa ser decidido na frente." Westphal entra também na discussão:
"Senhor Feldmarschall, nós não podemos amarrar o general Rommel, e para as decisões importantes cumpre ter o terreno debaixo dos olhos."
Todavia, Kesselring não se deixa convencer fàcilmente.
- Isto, senhores, poderá levar um dia a uma grande desgraça!
Texto extraído do livro Afrika Korps "As Raposas do Deserto"- de Paul Carell
Série - A história que vivemos - Livraria Editora Flamboyant - 1964
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