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Nos fumacentos combates de julho em 1942, em El Alamein, norte da África, destaca-se o perfil de um granadeiro que entrou na história. Seu retrato apareceu então em todos os jornais alemães. Tinha um rosto infantil, contava dezenove anos e chamava-se Günther Halm. Era um moço como centenas de milhares de outros que a guerra envolvera cedo em seus braços sangrentos. Nada tinha de um arrastador de espada nem de mata-mouros, era antes uma criança tímida. Seu suboficial da instrução de recrutas daria a cabeça a cortar se aquele moço pálido da classe de 22 se tornasse algum dia um herói, e muito menos um desses heróis cujo nome ficará para sempre ligado à história da guerra na África. Todavia, o ajustador-mecânico Günther Halm foi, depois de Hubert Brinkforth da Westfalia, o segundo e mais jovem soldado a receber a cruz de cavaleiro e a Cruz de Ferro. Recebeu-a de Rommel em pessoa, que lha pôs em volta do pescoço. Quando da entrega das condecorações uma mosca não cessou de pousar no nariz de Halm, o qual pensa hoje que a provação de se manter em sentido diante de um Feldmarschal quando se tem uma mosca fazendo cócegas no nariz é uma façanha muito mais difícil do que qualquer luta que nos renda há um tempo a fama e a Ritterkreuz.

Porque Günther Halm, como disseram até agora muitas narrativas e livros, não "ficou no deserto"; está vivo e foi ele próprio que me contou a sua história. Possui um negócio de carvão em Bad-Münder, é pai de quatro lindas filhinhas, e referiu-me as suas aventuras com vagar e hesitação, como quando a gente recorda coisas há muito esquecidas. Falava serenamente com seu sotaque de Brunswick. Ninguém, dentre os que o cercam, suspeita que esse Günther Halm seja o mesmo cujo retrato ornou, há quinze anos, a capa das revistas ilustradas alemãs. "Que adianta?" pergunta Halm encolhendo os ombros. Com toda essa glória, o famoso cavaleiro da Cruz de Ferro, ao regressar do cativeiro, não teve permissão para entrar na escola técnica de Brunswick a fim de continuar seus estudos de mecânica. Mas isso não teve grandes conseqüências. Ele montou um negócio com a esposa, e hoje seu comércio vai bem. Venceu com serenidade, persistência, sem o menor desvio, e, sobretudo com o sentimento do dever de que já dera provas em 22 de julho de 1942 na África do Norte.

O Combate

O comandante-chefe britânico, Auchinleck, pôs em linha, na noite de 21 para 22 de julho, suas mais fortes brigadas de choque para um grande ataque ao centro da frente de El Alamein, que devia quebrar a espinha do Afrikakorps. Os australianos, indianos e sul-africanos lançaram-se em poderosos ataques contra a frente alemã. A 15ª Divisão Panzer lutou com sua derradeira força contra os tanques britânicos, e então Auchinleck interveio com o seu melhor trunfo: a 23ª Brigada Blindada que acabava justamente de chegar da Inglaterra, e que foi lançada no combate com a missão de ajudar a 161ª Brigada Indiana a cercar a 21ª Divisão Panzer.

À beira de um oued, da largura de 300 metros, a poucos quilômetros do P.C. da 21ª Divisão Panzer, estava a seção de anti-tanque da companhia de comando do Regimento de Granadeiros 104, com seus dois canhões russos de 76,2. Cada peça pesava 700 quilos. O chefe de secão era o tenente Skubovius. O suboficial Jabeck era o chefe de peça do primeiro canhão e Günther Halm o apontador, olho e alma da peça. É do apontador que depende atingir ou não o alvo.

Toda a manhã a artilharia inimiga bombardeou as colinas do oued. Os serventes dos antitanques estavam estendidos atrás da peça, abrigados, envoltos nas pedras e poeira dos impactos. Só Skubovius se mantinha de pé, com o binóculo atrás do escudo, observando o oued. Bruscamente o tiro de artilharia parou. Quando as nuvens de fumaça se dissiparam, ouviu­se a voz de Skubovius: "Aí vêm eles!" Como eletrizados, os homens levantaram-se e Halm com eles.

Os tanques inimigos avançavam pelo oued. Como em exercício, uma formação de combate considerável de tanques ingleses Mark II, Mark IV e Valentine, achava-se a 150 metros da vertente onde estava a peça antitanque de Halm. Os homens que serviam na peça não sabiam que o esquadrão de ponta, de cinco tanques, já havia passado diante deles protegido pela cortina de fumaça. São cinco e não tardarão a encontrar-se diante do P.C. da Divisão. É necessário, portanto, destruir esses cinco. Mas quando os outros chegaram, os homens da peça de Halm contaram dez, vinte, trinta e ainda vinham mais; eram, talvez, cem, quando eles atacaram: "Adeus, Maria!" como se diz na linguagem da tropa.

Skubovius ordenou fogo à vontade. Trata-se agora de saber se Günther Halm tem nervos de aço e aponta bem, se o carregador tem o sangue frio e a rapidez necessários para fornecer de obuses o tubo do canhão, se os serventes 3 e 4 ficarão calmamente sentados nos reparos para impedir o canhão de se deslocar no recuo, pois o chão rochoso não permitiu enterrar as escoras. Eles não dizem uma palavra; Halm está sentado à esquerda junto à luneta de mira, à direita tem o carregador. Agora, Halm baixa a cabeça e aperta o botão. As pedras voam em redor deles, a fumaça envolve-os. As escoras ressentem-se, uma roda escorrega para trás e comprime a perna de Halm. Os homens tornam a pôr a peça no lugar, Halm não sente nenhuma dor. "Acertou!" grita Skubovius. Foi um tiro direto. Carregam de novo, Halm aponta, outro tiro direto.

Dois minutos não são ainda decorridos e já quatro tanques ingleses, estão em chamas na frente. Os outros procuraram localizar o inimigo, descobrem e agora vai ser o diabo. Os tanques disparam à vista sobre eles. Em redor explodem obuses, porém os artilheiros nem sequer lhes prestam atenção. Carregam, apontam, atiram e acertam. O fogo desaba sobre eles como uma tempestade, um obus de tanque passa entre as pernas de Halm. Outro leva a barriga da perna do carregador zero. O terceiro servente substitui-o, continua-se carregando, apontando, disparando e acertando, seis, sete, oito, e eis o nono tanque inglês ardendo. Os demais recuam. Impossível passar por ali, terão dito provavelmente os chefes de tanque. Um deles enviesa e sobe a encosta do djebel, a fim de surpreender de lado a peça antitanque. Mas a segunda boca de fogo, que está do outro lado, entra na dança, dispara duas vezes, e a torre do Mark II tomba ao lado da carcaça.

Uma investida de cem tanques é parada e recua diante de uma peça antitanque. Os nervos de alguns homens, os olhos e a mão de um rapaz de dezenove anos contêm uma brigada. O comandante do regimento, coronel Ebert, assistiu ao duelo sangrento do seu carro de comando. Correu para trás. Sabe que a peça não poderá manter-se muito tempo. Alerta os Stukas e dirigem-se para a posição os tanques da 21ª Divisão Panzer. Era tempo. A peça de Halm está agora sob o fogo dos tanques ingleses que ele acaba de repelir. O anteparo acha­se despedaçado, o carregador tenta arrastar-se para o posto de socorro com um penso provisório. Quase todos estão feridos ou receberam graves contusões provocadas pelo recuo. Mas assim mesmo continuaram atirando. Eis que um tiro em cheio derruba o visor da peça, o anteparo foi arrancado e os homens jogados na poeira. Estarão ainda vivos? Estão.

"Recuem para o posto de comando do regimento." É o fim do inferno. O segundo canhão, do outro lado do djebel, continua a atirar. Eis que os Stukas voam por cima das suas cabeças e chegam os Panzers IV da 21ª Divisão Panzer. Uma testemunha inglesa conta o que se passou em seguida. "A brigada, que tomara uma direção errada, caiu sob o fogo incrivelmente preciso de um antitanque alemão. O esquadrão de ponta foi esmagado. Nove tanques, entre os quais o do comandante, ficaram em chamas ao cabo de poucos minutos. Seis outros foram gravemente danificados e detidos. A desordem apoderou-se da brigada antes de ela ter tempo de se reagrupar, tomada a seu cargo pelos Stukas. Os Panzers IV alemães ocuparam-se do resto. Toda uma brigada desaparecera. Dois anos de instruções, uma viagem à volta de meio mundo, e em poucas horas tudo foi liquidado."

Gordon Radford, um londrinense, foi um dos raros que conseguiram reconduzir o seu tanque. "Foi um horror, disse ele; perderam-se 96 tanques." A tentativa inglês a de quebrar a espinha do Afrika-Korps de Nehring falhara. Cinco artilheiros, sob as ordens de um tenente, haviam conseguido essa façanha.

Günther Halm recebeu a Ritterkreuz das mãos de Rommel. Foi promovido a cabo, participou ainda de muitos combates e acabou como tenente. Quando em 1944, a bordo do Mauritânia, que o levava como prisioneiro para os Estados Unidos, entrou em conversa com um oficial britânico que tinha um pé artificial, constatou-se, por um extraordinário acaso, que esse oficial inglês estava num dos tanques que Günther Halm destruíra a 22 de julho no oued diante do Ruweisat. "Ele me deu-me então o seu endereço, porém mais tarde levaram-me os papéis quando estive prisioneiro na França, e embora lhe houvesse prometido nunca pude escrever-lhe", disse Günther Halm para concluir a sua história.

Texto extraído do livro Afrika Korps "As Raposas do Deserto"- de Paul Carell
Série - A história que vivemos - Livraria Editora Flamboyant - 1964

 

Links Relevantes:

+ A Flak Salva o Afrika Korps - Mai/Jun 1942
+ Norte da África - 1940/1943
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